Uma Breve Análise da Participação Feminina nas Eleições Municipais Brasileiras (2000 – 2024)

Por Maria Cecília Eduardo, Karol Roeder & Nilton Sainz

A análise da intenção de participação política das mulheres no Brasil, representada pelo número de candidaturas ao cargo de vereador, revela um crescimento significativo nas últimas décadas, impulsionado por mudanças na legislação e na conscientização social. De acordo com os dados históricos, no ano de 2000, as mulheres representavam apenas 19,1% do total de candidatos. Esse patamar de participação subiu para 22% nas eleições de 2004 e 2008, mantendo uma estabilidade que ainda refletia uma grande barreira de entrada.

O cenário mudou drasticamente a partir de 2012, quando a participação feminina no quadro de candidatos saltou para 32,6%. Esse avanço foi consolidado nas eleições seguintes, atingindo 33,1% em 2016 e 34,7% em 2020. Nas eleições municipais de 2024, registramos o maior índice da série histórica: as mulheres representam agora 35,4% do total de candidaturas a vereador no Brasil.

Embora o crescimento de 19,1% para 35,4% em 24 anos seja um progresso notável, os dados ainda revelam um abismo de representatividade. As mulheres compõem mais de 52% da população brasileira, mas ainda ocupam pouco mais de um terço do espaço nas listas de candidatos dos partidos.

Essa trajetória demonstra que, apesar das conquistas e do aumento do interesse feminino pela política institucional, a paridade plena ainda é um desafio distante. Barreiras estruturais, como o acesso desigual aos fundos partidários e a persistência de estereótipos de gênero, continuam a limitar o potencial de candidaturas femininas.

Para a professora do University College London (UCL) e pesquisadora do INCT ReDem, Malu Gato, as desigualdades de gênero na política brasileira estão profundamente enraizadas nas regras formais e informais do sistema:

“Apesar de serem a maioria da população, as mulheres continuam sub-representadas em todos os cargos eletivos no Brasil. Isso não é por acaso: as regras eleitorais beneficiam àqueles que já estão dentro do sistema. São eles, em sua maioria, homens brancos. As regras informais do jogo — ou seja, as práticas que, apesar de não formalizadas, guiam processos cruciais para as carreiras políticas, como o recrutamento de candidatos e a distribuição de recursos — também perpetuam as desigualdades. As análises sobre as causas e consequências da composição de gênero da classe política, por tanto, têm consequências para além daquelas relacionadas à representação política da mulher; esses estudos também nos revelam os muitos vieses dos processos democráticos.”

Malu Gatto, professora e pesquisadora.

A análise desses números reforça que a jornada para uma democracia verdadeiramente representativa exige não apenas o preenchimento de cotas, mas um incentivo contínuo e real para que cada vez mais mulheres busquem o protagonismo nas Câmaras Municipais.

Uma linha do tempo de mudanças e desafios que persistem

5 pontos que explicam a desigualdade de gênero na representação política do Brasil

Maria Cecília Eduardo é Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná. Pesquisadora de pós-doutorado no INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem). Interessada nos temas participação política de mulheres, financiamento de campanha e gênero e teoria política feminista.
Karolina Roeder é Doutora em Ciência Política pela UFPR, professora de Ciência Política na UNINTER e pesquisadora do INCT Representação e Legitimidade Democrática ReDem. Pesquisa partidos políticos, estrutura, financiamento e atualmente tem como foco o impacto de instituições formais e informais na representação de mulheres na política.
Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Eleições, Elites e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.

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