O crescimento das candidaturas indígenas e os limites da representação política

Por Isadora Bortolini e Nilton Sainz

O presente ensaio concentra-se em interpretar dados específicos sobre pessoas autodeclaradas indígenas e engajamento político. Para isso, foi feito um recorte que compreende o sucesso eleitoral de deputados estaduais, federais e senadores entre as eleições de 2014 e 2022. Entre os anos analisados, foram eleitos o que representa 11 pessoas, 5 diferentes partidos, os quais se diferem em 4 ideologias. 

Entre 2014 e 2024, o aumento de candidaturas indígenas eleitas no Brasil trouxe à tona uma lição importante: ocupar cadeiras no Legislativo não é o mesmo que defender, de fato, os interesses dos povos indígenas. Em Ciência Política, chamamos isso de diferença entre presença institucional (representação descritiva) e representação substantiva. Ao observar deputados estaduais, federais e senadores eleitos no período, este ensaio argumenta que trajetória, filiação partidária, ideologia e relação com o movimento indígena organizado ajudam a explicar diferenças importantes entre autodeclaração, reconhecimento coletivo e defesa efetiva das pautas indígenas. Nos três pleitos em que esses cargos estiveram em disputa no período analisado — 2014, 2018 e 2022 —, 11 candidaturas indígenas foram eleitas, distribuídas por cinco partidos e quatro posicionamentos ideológicos.

Antes, porém, de observar quais candidaturas indígenas alcançaram sucesso eleitoral, é preciso considerar o crescimento da presença indígena na competição eleitoral. Como mostra o gráfico abaixo, aumentou, ao longo dos pleitos analisados, a participação de candidaturas autodeclaradas indígenas entre deputados estaduais, deputados federais e senadores. Esse avanço é relevante porque aponta para uma ampliação da representação descritiva, isto é, da presença institucional de sujeitos indígenas buscando espaço na arena eleitoral.

Gráfico 1 – Candidaturas indígenas no Brasil aos cargos de deputado estadual, deputado federal e senador (2014 – 2022)

Fonte: Elaboração própria (2026).

Em conjunto, os dados sugerem que a presença indígena na disputa eleitoral brasileira se ampliou sobretudo nos cargos proporcionais, onde a entrada de novas candidaturas parece ter ganhado maior densidade ao longo do tempo. Esse crescimento é relevante porque indica um avanço da representação descritiva, isto é, da presença de sujeitos indígenas no processo eleitoral. Ainda assim, como o próprio argumento deste ensaio sustenta, esse aumento não autoriza concluir automaticamente que houve fortalecimento equivalente da representação substantiva, já que o sentido político desses mandatos depende também de trajetória, inserção partidária e vínculo com pautas coletivas dos povos indígenas.

Entre presença e representação: quem são os eleitos indígenas?

Se o crescimento das candidaturas indígenas ajuda a evidenciar uma ampliação da presença desses sujeitos na arena eleitoral, o exame dos eleitos permite avançar na compreensão de que tipo de representação chega, de fato, às instituições. Isso porque a conversão de candidaturas em mandatos não apenas reduz o universo observado, mas também revela com mais nitidez como partidos, trajetórias e posicionamentos ideológicos condicionam a forma assumida por essa presença no interior do sistema político. Em outras palavras, observar os eleitos é fundamental para distinguir entre aumento da participação eleitoral e efetiva consolidação de uma representação dos povos indígenas.Dos 11 candidatos eleitos, seis foram deputados federais. São três deputados estaduais e dois senadores. Em relação a ideologia, são quatro candidatos de esquerda, um do centro, dois de extrema-esquerda e quatro de direita, no que diz respeito a ideologia detalhada.

CARGONOMEPARTIDOIDEOLOGIA
Deputado estadualNunesPTEsquerda
Deputado estadualCapitão AssumçãoPLDireita
Deputado estadual Índia ArmelauPLDireita
Deputado federalJoenia WapichanaRedeCentro
Deputado federalSilvia WaiãpiPLDireita
Deputado federalPaulo GuedesPTEsquerda
Deputado federalCélia XakriabáPSOLExtrema-esquerda
Deputado federalJuliana CardosoPTEsquerda
Deputado federalSonia GuajajaraPSOLExtrema-esquerda
Senador Wellington DiasPTEsquerda
Senador Hamilton MourãoRepublicanos  Direita

Fonte: Portal da Classe Política (INCT ReDem); classificação ideológica conforme Bolognesi et al. (2025).

A partir da variável “ideologia”, será interessante explorar se há diferenças relevantes em relação à ideologia detalhada, nesse caso entre os eleitos do PT e PSOL, considerando que esses são os partidos que divergem em esquerda e extrema-esquerda. A distinção interna à esquerda pode ser analiticamente interessante, considerando as trajetórias de militância anteriores ao mandato. 

É importante perceber que a participação política é subjetiva e responde a fatores diversos e/ou aspirações individuais. Sendo assim, a autodeclaração não é sinônimo de representação dos interesses das comunidades indígenas. A diversidade de contexto social e de carreira política resulta para diferentes motivações que podem, inclusive, ser alheias à prática indigenista. Apesar da difusão da ideia da articulação e existência indígena, no geral, como homogênea e concordante, os dados coletados até o momento demonstram que tal contexto é permeado por perspectivas por vezes conflitantes. É no mesmo sentido que se torna necessário analisar fatores diversos para determinar a escolha de partido e por conseguinte, ideologia detalhada. 

Outro fator a ser observado é a presença de cargos não eletivos nessas trajetórias. Nesse caso, dos 11 candidatos, Joenia Wapichana (Rede Sustentabilidade) é, atualmente, presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), tendo assumido o cargo em 2023 como a primeira mulher indígena a ocupá-lo. Sonia Guajajara (PSOL) é a atual Ministra dos Povos Indígenas do Brasil, cargo criado em 2023, sendo, também, a primeira mulher indígena a assumi-lo. 

Os candidatos de ideologia de direita – três do Partido Liberal e um do Republicanos – possuem histórico conturbado de atuação política no tocante ao movimento indígena. Em fevereiro de 2025 a Articulação Nacional dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) – instância de referência nacional do movimento indígena no Brasil – publicou a matéria intitulada “Deputada bolsonarista Silvia Nobre é repudiada por organizações dos Wajãpi: ‘não representa nosso povo’”. O material demonstra que a deputada não é reconhecida como indígena pelo próprio povo, apesar de autodeclarada. No mesmo texto, afirma-se que ocorre uso do nome indígena para defesa de atividades ilegais de mineração e agronegócio. Na carta de repúdio, o Conselho das Aldeias Wajãpi – Apina, afirma, categoricamente, que: 

[…] “a senhora Silvia Nobre Lopes, do Partido Liberal do Amapá, que usa o nome Waiãpi e está apoiando o Bolsonaro, não representa nosso povo Wajãpi, ela não faz parte das nossas organizações representativas e não pode falar em nosso nome. […] Nós somos contra as propostas do Bolsonaro e da Sílvia de exploração das Terras Indígenas para mineração, garimpo, agronegócio, extração de madeira e outras atividades que destroem a floresta. Nós lutamos pela demarcação de todas Terras Indígenas no Brasil e contra o Marco Temporal. […] Não aceitamos que o nome do nosso povo seja usado para apoiar esse presidente genocida e as propostas da bancada ruralista no congresso.” (APIB, 2025). 

Já o deputado Capitão Assumção (PL), deputado e candidato à prefeitura de Vitória – Espírito Santo em 2024, se autodeclarou indígena naquele ano, em 2022 e 2020. Nos processos eleitorais de 2014, 2016 e 2018, era autodeclarado branco. O capitão reserva da Polícia Militar, passou a ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por ações que posteriormente resultaram em prisão. Em 2024, descumpriu medidas cautelares do STF em relação ao histórico de disseminação de notícias falsas, sendo investigado por envolvimento na organização financeira e midiática dos atos antidemocráticos em 8 de janeiro de 2023.

Hamilton Mourão (Republicanos) atribuiu a autodeclaração a alteração de dados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Durante a candidatura ao Senado do Rio Grande do Sul, ainda era vice-presidente de Jair Messias Bolsonaro, em um período de governo marcado por violências contra os povos indígenas através de paralisação de demarcações, descaso sobre ações do agronegócio e da mineração em territórios, etc. Ainda assim, Hamilton Mourão afirmou descendência de pai indígena nas redes sociais. 

A autodeclaração racial no TSE não é realizada com verificação externa, o que a distingue da autodeclaração censitária (realizada com categorias populacionais) e da autodeclaração comunitária (que pressupõe reconhecimento coletivo). O caso de Capitão Assumção e Hamilton Mourão demonstram formas estratégicas de uso desse dispositivo eleitoral, fato que, por sua vez, atestam que declarar não significa pertencer, efetivamente. 

Índia Armelau, deputada estadual pelo PL, também aparece investigada por comandar um esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. A organização tinha como objetivo a eleição do marido para a câmara de vereadores do Rio de Janeiro, Fernando Paes Armelau (PL) – que ocorreu, efetivamente, em 2024. 

Créditos da image: Adriano Arantos

No geral, em um levantamento preliminar, nenhuma das pessoas autodeclaradas indígenas que representam / são representadas por partidos de ideologia de direita, sugerindo ausência de vínculo com o movimento indígena organizado. Nos casos analisados observou-se esse padrão – ainda, essa hipótese precisará ser testada com um universo mais amplo. Os demais candidatos estão explicitamente relacionados com a causa trabalhista e / ou ambiental. No geral, estiveram envolvidos em processos de luta por demarcação de território, com a causa feminista,  etc., e direcionam seu posicionamento para a valorização e defesa das populações originárias do Brasil. É premente, na continuidade da pesquisa, analisar esses aspectos de maneira minuciosa. 

De todo modo, ficam explícitas as ideias iniciais a serem mais profundamente exploradas sobre a representação, além do entendimento de que a autodeclaração não necessariamente acompanha o trabalho efetivo para a causa indígena, aqui compreendida como a que se articula contra qualquer tipo de violência contra etnias indígenas brasileiras. Além disso, a redemocratização do país e participação indígena na formulação da Constituição de 1988 parece ser uma variável diretamente relacionada à crescente estatística de candidaturas e sucesso eleitoral de pessoas autodeclaradas. A relação com o crescimento de candidaturas indígenas constitui hipótese promissora de pesquisa. Em outro momento, demandará análise a partir de um recorte temporal mais extenso.

Sobre os autores

Isadora Bortolini é estudante do curso de bacharelado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Paraná e bolsista de iniciação científica do CNPq.

Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.

Referências

BOLOGNESI, Bruno; RIBEIRO, Ednaldo; CODATO, Adriano; SILVA, Bruno Fernando da. O desaparecimento do centro ideológico no sistema partidário brasileiro: a classificação mais atualizada dos experts. Opinião Pública, Campinas, SP, v. 31, p. e31120, 2026. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/op/article/view/8682072. Acesso em: 13 mar. 2026.

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