Qual o tamanho da União Progressista? E onde ele está?

Créditos da Imagem: União Brasil.

Por João Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz

No dia 19 de agosto do ano passado, União Brasil (UB) e Progressistas anunciaram a criação de uma federação partidária, batizada de União Progressista (UPB). A federação implica que, por no mínimo quatro anos, os dois partidos atuarão como uma única agremiação: lançando candidaturas unificadas ao Executivo e se comportando no Legislativo como uma só bancada.

Os números da federação impressionam. O novo arranjo contará com a maior bancada da Câmara dos Deputados, com 108 parlamentares, a segunda maior do Senado, com 15 senadores, além de mais de 1300 prefeituras e seis governos estaduais. Trata-se, portanto, de um dos atores mais relevantes do sistema político brasileiro contemporâneo.

No entanto, o tamanho agregado da federação diz pouco sobre como esse poder está distribuído no território. Em sistemas federativos e eleitoralmente desiguais como o brasileiro, a localização geográfica do voto e da representação é um elemento central para compreender o peso político efetivo de um partido — especialmente quando há forte variação entre regiões e tipos de município.

É nesse ponto que emerge o problema que orienta esta análise: onde, exatamente, está ancorado o poder da União Progressista no Brasil? Trata-se de uma força homogênea e nacionalizada ou de um partido cuja influência depende de padrões territoriais específicos, como regiões ou municípios de determinado perfil?

Ao explorar a geografia eleitoral da federação, combinando dados de votação, representação legislativa e desempenho municipal, este artigo busca mostrar que o poder da União Progressista não é apenas grande, mas também desigualmente distribuído, com implicações relevantes para a dinâmica da representação política e para as disputas eleitorais futuras.

Créditos da imagem: União Brasil.

A distribuição territorial da União Progressista

Quando falamos da bancada federal do partido alguns estados se destacam. Como evidenciado no primeiro mapa, onde analisamos os dados de votação para deputado federal em 2022, estados como Alagoas, em que os dois partidos que formam a federação tiveram somados 43% dos votos e contam hoje com 5 dos 9 deputados do estado, e o Acre, em que os partidos somaram 41% do total, mostram a força da nova federação. A maior parte dos votos do partido se encontram na região nordeste, em que os partidos atingiram 23% dos votos totais. A região em que a federação pior performou no legislativo federal foi o sudeste, com 13% dos votos.

Mapa 1. Os mapas apresentados a seguir estão organizados por municípios e utilizam um gradiente de cor azul: quanto maior a votação obtida pelos partidos da federação em relação ao total do município, mais intensa será a tonalidade azul. Fonte: TSE/CEM, Elaboração própria (2025).

O poderio da UPB se mostra ainda maior nas eleições municipais, como mostram os mapas abaixo. O partido contará com mais de 12 mil vereadores, distribuídos especialmente nas regiões norte e centro-oeste.  Além disso, em mais de 300 municípios os dois partidos atingem, somados, mais de 50% dos votos para vereador. Ou seja, por 4 anos essas câmaras municipais possuíram maioria absoluta da federação. O mapa abaixo dá uma dimensão dos votos da UPB para vereança.

Mapa 2. Fonte: TSE/CEM, Elaboração própria (2025).

Além disso, a UPB também contará com mais de 1300 prefeituras, a maior parte delas distribuídas nas mesmas regiões mencionadas acima: norte e centro-oeste. Em estados como Acre e Amapá o partido comandará mais de 50% das prefeituras do Estado.

Mapa 3. Fonte: TSE/CEM, Elaboração própria (2025).

O que a análise dos dados nos mostrou é que o partido possui um desempenho melhor nos municípios de menor população. Usando uma técnica estatística, a regressão logística pode-se perceber que a chance de vitória da federação decresce à medida que a população do município é maior.

Gráfico 1. Fonte: TSE/CEM, Elaboração própria (2025).

Assim, a criação dessa mega federação enseja alguns debates a respeito da política nacional. O primeiro é a força dos municípios pequenos. Com a desproporção da representação dos estados na câmara dos deputados, com os estados menores sendo super-representados, os partidos da União Progressista são consideravelmente beneficiados. Curiosamente, a ARENA também se aproveitava da mesma desproporção no período da Ditadura Militar, ficando conhecido como um partido de “grotões”.

O segundo é a não equivalência do voto para presidente e para deputado no Brasil. Como apresentamos acima, o nordeste, reduto do lulismo, foi a melhor região para os partidos dessa federação. O fato é irônico quando se pensa na difícil relação desses partidos com o governo federal, estando muitas vezes mais próximo da oposição do que de Lula.

Por último, precisa-se ressaltar que, diferente de partidos mais ideológicos, a União Progressista é um amálgama de diferentes grupos e lideranças que não necessariamente pensam de formas parecidas. Embora devemos ressaltar o tamanho e a força dessa federação, deve-se pensar quais grupos conseguiram hegemoniza-la, pensando no cenário de 2026. Com o julgamento e a condenação de Jair Bolsonaro, os atores da oposição têm-se organizado para pensar qual é o melhor nome para enfrentar, possivelmente, o presidente Lula. Independentemente de quem seja, o certo é que veremos a União Progressista como um ator central nesse processo.

Sobre os autores

João Marcelo Lima Barra é Graduado em Ciências Sociais pela USP, membro do Portal da Classe Política e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).

Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.

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