Por João Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz
Em agosto do ano passado, um grupo de parlamentares bolsonaristas tentou impedir a reabertura dos trabalhos legislativos, em reação à prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. Deputados ocuparam a mesa diretora da Câmara e exigiram o fim do foro privilegiado e uma anistia ampla aos envolvidos nos atos golpistas.
Catorze deputados foram denunciados à Corregedoria da Câmara pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). Entre eles, 12 são filiados ao Partido Liberal (PL), o que revela a centralidade do partido no episódio. Os nomes incluem figuras como Nikolas Ferreira (PL-MG), Bia Kicis (PL-DF) e Carlos Jordy (PL-RJ). Dois parlamentares vieram de outras siglas: Marcel van Hattem (Novo-RS) e Allan Garcês (PP-MA), este último assumiu a vaga após a saída de André Fufuca (PP-MA) para o governo Lula.
Esta análise investigou qual é a base eleitoral dos deputados envolvidos no motim da Câmara e em que medida sua força política deriva de três dimensões distintas: concentração territorial do voto, aderência ao bolsonarismo municipal e relevância institucional no interior da arena legislativa.
A geografia eleitoral do voto
O estado com maior número de parlamentares denunciados foi Santa Catarina, com três. A região Sul, como um todo, teve cinco denunciados, ficando em segundo lugar atrás do Sudeste, que registrou seis. A única região sem representantes no motim foi a Norte. Esse fato mostra a clivagem regional do movimento de direita no páis, cuja força está distribuída de forma desigual ao redor do país.
O mapa abaixo foi elaborado por município, em um gradiente de azul: quanto mais intensa a cor, maior o percentual de votos conferidos aos deputados amotinados. Os estados em cinza não tiveram representantes no motim.

Na visualização do mapa alguns pontos ficam evidentes. Minas Gerais foi o estado que mais conferiu votos a deputados que participaram do motim. O fenômeno, muito puxado pela votação de Nikolas Ferreira (PL-MG), tem sua máxima expressão na região central do estado, com cidades que chegaram a depositar 50% dos votos em deputados amotinados. O deputado também foi o mais votado do país nesse pleito, aglutinando um milhão e meio de votos ou 13% dos votos válidos do estado.
Interessantemente, o Rio de Janeiro e São Paulo, apesar de terem dois deputados denunciados cada, não se destacam no mapa. O que mostra que seus representantes não foram líderes de votação. O Maranhão, por sua vez, apresenta as menores porcentagens entre os estados com participantes, visto que seu único envolvido assumiu o mandato como suplente.
Outras regiões que votaram significativamente nesses parlamentares foram o oeste de Santa Catarina e partes do Mato Grosso do Sul e do Rio Grande do Sul. Essas regiões, mais Minas Gerais, formam espécies de redutos desses deputados. Ou seja, locais em que o voto está concentrado espacialmente.
Para o estudo da política esses locais são especialmente importantes tanto para compreender preferências ideológicas do eleitorado quanto para examinar a própria atuação desses deputados nessas regiões, como por exemplo o direcionamento de emendas parlamentares.
Voto em Bolsonaro e voto nos deputados amotinados
O gráfico abaixo mostra que existe uma relação, ainda que fraca, entre o voto nos deputados amotinados e o voto em Bolsonaro em 2022. Municípios que mais apoiaram esses parlamentares também tenderam a registrar votações mais elevadas para o ex-presidente. O eixo horizontal representa o percentual de votos nos deputados amotinados e o vertical, os votos em Bolsonaro por município.
A correlação de Pearson entre as duas variáveis foi de r = 0,20 (p < 0,001), indicando uma associação positiva, mas de baixa intensidade. Em outras palavras, embora o desempenho desses parlamentares esteja relacionado à força eleitoral de Bolsonaro, há outros fatores que também ajudam a explicar seu padrão de votação.

Atuação Parlamentar
Além disso, também é interessante estudarmos a relevância desses parlamentares dentro da própria câmara. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) publica anualmente uma pesquisa chamada “Cabeças do Congresso”, visando mapear os 100 parlamentares mais influentes. Dos 14 deputados amotinados apenas três foram mencionados na atual legislatura, sendo eles Carlos Jordy (PL-RJ) em 2023 e Nikolas Ferreira (PL-MG) e Bia Kicis (PL-DF) em 2024.
Esse episódio evidencia uma distinção recorrente no trabalho parlamentar entre deputados ideológicos e articuladores. Enquanto os segundos buscam ocupar relatorias, integrar comissões e estabelecer redes de negociação para aprovar pautas ou garantir acesso a recursos, os primeiros concentram sua atuação em agendas ideológicas, priorizando discursos e ações simbólicas, como o próprio motim.

O episódio teve sua, aparente, conclusão. O corregedor da Câmara puniu três deputados – Marcos Pollon (PL-MS), Marcel Van Hattem (NOVO-RS) e Zé Trovão (PL-SC) – com a suspensão do mandato por 30 dias. Por outro lado, a pauta reivindicada pelo grupo, especialmente a anistia, segue com destino incerto, com o projeto aprovado nas duas casas do parlamento de redução de penas tendo sido vetado pelo presidente, mas havendo ainda a possibilidade de derrubada desse veto.
De qualquer forma, mapear a atuação dos parlamentares e suas bases eleitorais se faz relevante para compreender a ascensão de elites políticas cujo comportamento desafia as instituições. Trazendo para o centro do debate a relação entre a representação democrática e a estabilidade do sistema político.
Sobre os autores
João Marcelo Lima Barra é Graduado em Ciências Sociais na USP, membro do Portal da Classe Política e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).
Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.


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