A participação feminina na liderança partidária e o cumprimento das cotas financeiras para mulheres

Por Maria Cecília Eduardo

A persistente sub-representação feminina na política é uma questão de grande relevância e complexidade. Pesquisas sobre essa temática têm apontado o financiamento de campanhas como um fator central na manutenção da desigualdade de gênero nesse processo. Numa disputa eleitoral, a maioria das mulheres enfrenta desafios mais rigorosos em comparação aos homens, recebendo menor apoio partidário e tendo redes de financiamento mais restritas. Além disso, muitas vezes investem menos recursos próprios em suas campanhas, o que limita suas chances de sucesso eleitoral.

Dentro desse cenário, investigamos como a participação feminina na estrutura organizacional dos partidos políticos pode influenciar a distribuição de recursos financeiros de campanha a favor das candidatas. Evidências anteriores já indicaram que partidos com maior presença feminina tendem a promover maior igualdade de gênero. Além disso, a presença de mulheres em cargos de liderança partidária tem sido relacionada com o aumento no número de candidatas e a probabilidade de eleição de mulheres, variando conforme o contexto institucional.

Nas eleições de 2018 e 2022, observamos um aumento significativo na centralidade dos partidos políticos. Esse fenômeno se evidenciou pelo fato da maior parte dos fundos mobilizados para as disputas eleitorais ter sido direcionada pelas lideranças partidárias. Tal fato destaca o papel central dos partidos na gestão e distribuição dos recursos de campanha.

Nosso levantamento mostrou que a presença de mulheres na presidência estadual e na secretaria geral dos partidos está correlacionada a um aumento significativo nos recursos destinados às candidatas e na chance de os partidos cumprirem as cotas de gênero no financiamento público de campanha. No entanto, a representação feminina em instâncias decisórias dos partidos ainda é baixa, como podemos ver na tabela abaixo. No geral, as mulheres ocupam menos de um quinto do total de cargos analisados.

Esse panorama reflete a necessidade urgente de transformar a cultura política e as estruturas partidárias para promover a inclusão e a igualdade de gênero, garantindo que as mulheres tenham as mesmas oportunidades de competir e vencer nas eleições. A mudança começa com a reestruturação interna dos partidos e o comprometimento com a diversidade e a inclusão, para que possamos avançar rumo a uma representação política mais equitativa e justa para as mulheres.

Maria Cecília Eduardo é Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná. Pesquisadora de pós-doutorado no INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem). Interessada nos temas participação política de mulheres, financiamento de campanha e gênero e teoria política feminista.

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