Autor: João Marcelo Lima Barra

  • Entre o estadual e o nacional: a relação entre voto presidencial e governatorial em 2022

    Entre o estadual e o nacional: a relação entre voto presidencial e governatorial em 2022

    Por João Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz

    No sistema federalista brasileiro eleições nacionais, estaduais e municipais possuem diferentes importâncias e incentivos. Carlos Melo (2010) chamou isso de “jogos aninhados”, ou seja, disputas em que o resultado de uma arena impacta em outra. Favorece isso o calendário coincidente das eleições para presidente, senadores, governadores e deputados – gerando incentivos para os partidos coordenarem suas estratégias nas eleições.

    Nesse sentido, duas eleições em particular se destacam: para presidente e para governador. Os dois principais cargos executivos não só contam com a maior quantidade de recursos, como também organizam as demais eleições para deputados e senadores e, em alguma medida, para prefeitos, no período eleitoral posterior.

    Para os principais partidos nas eleições presidenciais as eleições para governador podem cumprir diferentes propósitos. Eleger governadores facilitaria a governabilidade de um possível futuro governo, além de também facilitar na construção de uma base no congresso nacional. Em outra direção, para esses partidos, há incentivos para lançar candidaturas mesmo sem intenção de ganhar, como forma de ampliar e capilarizar a campanha nacional. 

    Um fator central para compreender a coordenação entre eleições presidenciais e estaduais é a capacidade que grandes campanhas nacionais têm de influenciar disputas em outros níveis. Na Ciência Política, esse fenômeno é conhecido como coattail effect: a ideia de que um candidato muito visível e popular (como o presidenciável) pode atrair votos para candidatos do mesmo partido em eleições legislativas ou executivas subnacionais, que se beneficiam de sua exposição e apelo eleitoral.

    Neste texto, analisamos como esse efeito se manifestou nas eleições de 2022, examinando a capacidade dos dois partidos que polarizaram o pleito, PT e PL, de converter votos presidenciais em apoio a seus candidatos a governador. Além de medir essa relação de forma agregada, exploramos suas variações territoriais, buscando identificar em quais regiões o efeito foi mais forte e onde ele praticamente não ocorreu.

    Quem coordenou melhor? O desempenho do PT e do PL

    Inicialmente, é preciso ressaltar que agrupamos como candidaturas de cada partido para o governo do estado aquelas em que o partido constava na cabeça de chapa ou na vice, não contabilizando aquelas em que estava coligado.

    Vencedor da eleição presidencial de 2022, o PT lançou candidatos a governador ou vice em 18 estados, recorrendo a alianças em outras unidades da federação. Em linha com sua trajetória histórica, a estratégia estadual do partido esteve fortemente articulada à campanha presidencial: as candidaturas a governador funcionaram como palanques regionais para o projeto nacional, com a expectativa de que o bom desempenho de Lula se convertesse em votos para os candidatos petistas nos estados.

    Os dados indicam que essa estratégia foi, em grande medida, bem-sucedida. O gráfico de dispersão abaixo mostra uma associação positiva clara entre a votação do PT para presidente e para governador em nível municipal. Em grande parte das cidades, quanto maior foi o desempenho presidencial do partido, maior também foi a votação de seus candidatos ao governo estadual.

    O mapa que trazemos ajuda a esmiuçar o problema.  Na maioria dos estados, a votação do PT para governador acompanhou de forma bastante próxima a votação presidencial, sugerindo uma capacidade elevada de coordenação entre as duas disputas. Em estados como Mato Grosso, Goiás, Tocantins e Paraíba, no entanto, essa associação foi significativamente mais fraca. Nesses casos, a candidatura presidencial parece ter desempenhado papel central, enquanto as candidaturas ao governo estadual tiveram desempenho mais limitado, indicando estratégias mais voltadas à sustentação do palanque nacional do que à competição efetiva pelo Executivo estadual. Ele apresenta, também por município, a proporção do voto para presidente que o de governador presenta. Assim, se o voto para governador no PT foi idêntico ao para presidente o valor será 100%. Os estados que aparecem em cinza foram aqueles que não houveram candidaturas do partido.

    Mapa 1. Fonte: TSE/CEM. Elaboração Própria (2026)

    Olhando o gráfico abaixo, o padrão presente no mapa se repete, com a votação para governador acompanhando na maioria das cidades a de presidente. Na figura, cada ponto representa uma cidade e o eixo horizontal o voto para presidente e o eixo vertical para governador. A linha de tendência foi calculada com o programa Rstudio. O valor (r2) presente no gráfico representa a força da relação entre as variáveis, quanto mais próximo de 1 mais forte.

    Gráfico 1. Fonte: TSE. Elaboração própria

    No caso do PL, o padrão observado é substancialmente distinto. Embora o partido tenha disputado um número de eleições estaduais semelhante ao do PT com candidatos a governador ou vice em 17 estados, sua capacidade de converter votos presidenciais em apoio às candidaturas estaduais foi significativamente menor.

    O mapa ajuda a compreender como esse desalinhamento se distribuiu territorialmente. Em estados como Ceará e Rio de Janeiro, o desempenho das candidaturas do PL ao governo estadual acompanhou de forma relativamente próxima a votação presidencial de Bolsonaro. Já em Goiás, Minas Gerais e Bahia, observa-se um descolamento acentuado entre as duas disputas. Nesses estados, a presença de candidatos fortes da direita não filiados ao PL (casos de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e ACM Neto) limitou o espaço eleitoral do partido na corrida para governador, mesmo em contextos de votação presidencial expressiva. Nesse caso, é muito provável que as candidaturas foram feitas como forma de alavancar a candidatura nacional, sem intenções reais de vitória.

    Mapa 2. Fonte: TSE/CEM. Elaboração Própria (2026)

    O gráfico de dispersão evidencia essa diferença. Ao contrário do que se observa no caso do PT, há maior dispersão dos pontos em relação à linha de tendência, indicando uma associação mais fraca entre a votação do PL para presidente e para governador. Em termos substantivos, isso significa que um bom desempenho de Jair Bolsonaro em um município nem sempre se traduziu em votação elevada para os candidatos do partido ao governo estadual e, em alguns casos, ocorreu exatamente o oposto.

    Gráfico 2. Fonte: TSE. Elaboração própria.

    Parte desse padrão pode ser explicado por uma menor capilaridade do partido e uma estrutura recém estruturada para disputar candidaturas presidenciais. Deve-se lembrar que Bolsonaro entrou no PL em 2021, momento que o partido passou a ter maiores pretensões presidenciais. Ao passo, que desde sua fundação o PT teve como grande foco do partido a disputa da eleição presidencial, subordinando as demais eleições a essa.

    Como resultado, o partido apresentou uma capacidade de transferência de votos consistentemente inferior à do PT. Entre os fatores que ajudam a explicar esse desempenho estão a maior fragmentação do campo da direita nos estados, a forte personalização do partido em torno da figura de Bolsonaro e o histórico mais limitado de coordenação eleitoral do PL em disputas subnacionais.

    Com a aproximação das eleições de 2026 e o avanço das negociações para a formação de alianças estaduais, esses padrões ajudam a antecipar dilemas centrais da próxima disputa. A forma como partidos e lideranças nacionais conseguirão — ou não — alinhar estratégias presidenciais e estaduais tende a ser um dos fatores decisivos do próximo ciclo eleitoral.

    Sobre os autores

    João Marcelo Lima Barra é Graduado em Ciências Sociais na USP, membro do Portal da Classe Política e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).

    Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.

  • Por que a esquerda vence no Planalto, mas perde território no Legislativo? Uma análise a partir da geografia do voto

    Por que a esquerda vence no Planalto, mas perde território no Legislativo? Uma análise a partir da geografia do voto

    Por João Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz

    Em um sistema presidencialista o voto dado nas eleições legislativas por vezes é ofuscado pela grande atenção midiática que as eleições presidenciais atraem. Esse fenômeno pode muitas vezes levar eleitores a desvincularem uma eleição da outra, votando em candidatos a deputados federais que se opõem à coalizão escolhida pelo eleitor para o executivo.

    Nas eleições brasileiras, muitos eleitores escolhem um candidato a presidente de um espectro ideológico, mas votam em deputados federais de outros espectros ideológicos. Embora essa seja uma decisão legítima do ponto de vista da representação, refletindo critérios distintos na escolha de cargos diferentes, ela produz um desalinhamento entre o voto no Executivo e no Legislativo. Na prática, esse descompasso ajuda a explicar as dificuldades recorrentes de governabilidade enfrentadas pelos presidentes em sua relação com o Congresso.

    No Brasil, no caso dos partidos de esquerda esse tem sido um problema bastante evidente. Mesmo ganhando cinco das últimas seis disputas presidenciais, a esquerda nunca conseguiu traduzir esses resultados nas eleições legislativas.

    No presidencialismo de coalizão brasileiro, isso leva a uma série de problemas. Considerando o sistema partidário fragmentado, todos os presidentes, assim que empossados, precisam expandir o arco de alianças constituído ao longo da campanha. Caso a base parlamentar original seja pequena, é provável que o executivo tenha que constituir uma coalizão em um amplo espectro ideológico, o que resultaria em dificultar a governabilidade e no aumento dos custos do governo.

    No governo Lula III, o reduzido tamanho de sua base original no congresso tem ganhado contornos dramáticos. O executivo tem apresentado grande dificuldade em aprovar pautas de sua autoria, com a rejeição, inclusive, de parlamentares da coalizão governamental.

    Neste texto, analisamos onde esse desencaixe entre o voto presidencial e o legislativo é mais intenso no território brasileiro e como ele evoluiu ao longo das últimas três eleições (2014, 2018 e 2022). A partir de uma leitura geográfica dos resultados eleitorais, mostramos em quais regiões o desempenho da esquerda para presidente não se converteu em votos para deputado federal e se essa distância aumentou ou diminuiu ao longo do tempo. Para definir quais partidos compõem o campo da esquerda, utilizamos a classificação proposta por Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023).

    Uma análise a partir da geografia espacial do voto

    No mapa abaixo organizamos por municípios o voto em partidos de esquerda para presidente (no 1° turno) e Deputado Federal.

    Mapa 1. Fonte: TSE/CEM. Elaboração Própria (2026)

    Entre 2014 e 2018, a esquerda perdeu votos em escala nacional tanto nas eleições presidenciais quanto nas legislativas. Parte do desempenho excepcional em 2014 se explica pela candidatura de Marina Silva pelo PSB, então classificada no campo da esquerda, o que inflou os resultados naquele pleito.

    A partir de 2018, no entanto, mesmo com a retração do apoio em estados do Centro-Sul e do Centro-Oeste, os principais redutos presidenciais da esquerda – especialmente no Norte e no Nordeste – permaneceram relativamente estáveis. Esse padrão de continuidade, contudo, não se repetiu nas eleições para deputado federal, onde o apoio à esquerda mostrou-se muito mais fragmentado territorialmente.

    Em 2022, mesmo no embalo da candidatura de Lula (PT), a esquerda perdeu votos em praticamente todos os estados do Nordeste para deputado federal. O resultado foi um padrão contraintuitivo: unidades federativas de maioria bolsonarista, como Santa Catarina e o Distrito Federal, apresentaram desempenho legislativo da esquerda (17,2% e 26,7%, respectivamente) superior ou comparável ao de estados nordestinos com forte votação presidencial lulista, como Sergipe (16,7%) e Alagoas (13,4%).

    Esse contraste reflete diferentes graus de desalinhamento entre o voto presidencial e o legislativo. Enquanto em estados do Sul e do Centro-Oeste a distância entre os dois votos ficou em torno de 14 a 15 pontos percentuais, em partes do Nordeste ela ultrapassou os 45 pontos. Casos como Amazonas e Tocantins, que reiteradamente votam na esquerda para presidente, mas registraram apenas 8% e 11% dos votos para deputado federal em 2022, ilustram com clareza esse desencaixe.

    O gráfico e o mapa abaixo sintetizam esse padrão ao mostrar, por estado, a diferença entre a votação da esquerda para presidente e para deputado federal em 2022.

    A partir de técnicas estatísticas foi possível perceber que em 2022 o voto legislativo de esquerda foi menos disperso do que nas demais eleições, ou seja, concentrou-se menos em redutos do que no ano de 2018. Além disso, também foi menos relacionada com o voto no executivo. Ambos os resultados explicam a derrocada legislativa da esquerda em estados de maioria lulista e sua leve melhora em estados bolsonaristas ocorrida em 2022. 

    A análise das eleições recentes indica que o desempenho legislativo da esquerda nem sempre acompanha sua votação presidencial. Em alguns casos, esse resultado parece estar associado a fatores políticos subnacionais, como a presença de governadores de esquerda, como no Ceará e no Piauí, ou a uma inserção histórica mais profunda de partidos de esquerda na sociedade civil, como ocorre no Rio Grande do Sul. Não por acaso, em 2022, esses três estados registraram alguns dos melhores desempenhos legislativos da esquerda no país.

    Do ponto de vista institucional, esse padrão não é surpreendente. Em sistemas presidencialistas, eleições para o Executivo e para o Legislativo são disputas distintas, com lógicas próprias e incentivos diferentes para eleitores e partidos, especialmente quando se considera a diferença entre arenas nacionais e dinâmicas políticas locais.

    No entanto, nota-se que a dessemelhança de resultados eleitorais tem trazido severas dificuldades ao campo político da esquerda e ao governo federal, com as preferências médias do parlamento sendo significativamente diferentes daquelas do executivo. 

    Compreender a relação entre esses dois tipos de voto é, portanto, fundamental não apenas para interpretar as tensões atuais entre Executivo e Legislativo, mas também para antecipar os desafios eleitorais de 2026 e as estratégias que diferentes campos políticos precisarão adotar para reduzir ou explorar esse descompasso.

    Sobre os autores

    João Marcelo Lima Barra é Graduado em Ciências Sociais na USP, membro do Portal da Classe Política e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).

    Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.