Por João Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz
Em um sistema presidencialista o voto dado nas eleições legislativas por vezes é ofuscado pela grande atenção midiática que as eleições presidenciais atraem. Esse fenômeno pode muitas vezes levar eleitores a desvincularem uma eleição da outra, votando em candidatos a deputados federais que se opõem à coalizão escolhida pelo eleitor para o executivo.
Nas eleições brasileiras, muitos eleitores escolhem um candidato a presidente de um espectro ideológico, mas votam em deputados federais de outros espectros ideológicos. Embora essa seja uma decisão legítima do ponto de vista da representação, refletindo critérios distintos na escolha de cargos diferentes, ela produz um desalinhamento entre o voto no Executivo e no Legislativo. Na prática, esse descompasso ajuda a explicar as dificuldades recorrentes de governabilidade enfrentadas pelos presidentes em sua relação com o Congresso.
No Brasil, no caso dos partidos de esquerda esse tem sido um problema bastante evidente. Mesmo ganhando cinco das últimas seis disputas presidenciais, a esquerda nunca conseguiu traduzir esses resultados nas eleições legislativas.
No presidencialismo de coalizão brasileiro, isso leva a uma série de problemas. Considerando o sistema partidário fragmentado, todos os presidentes, assim que empossados, precisam expandir o arco de alianças constituído ao longo da campanha. Caso a base parlamentar original seja pequena, é provável que o executivo tenha que constituir uma coalizão em um amplo espectro ideológico, o que resultaria em dificultar a governabilidade e no aumento dos custos do governo.
No governo Lula III, o reduzido tamanho de sua base original no congresso tem ganhado contornos dramáticos. O executivo tem apresentado grande dificuldade em aprovar pautas de sua autoria, com a rejeição, inclusive, de parlamentares da coalizão governamental.
Neste texto, analisamos onde esse desencaixe entre o voto presidencial e o legislativo é mais intenso no território brasileiro e como ele evoluiu ao longo das últimas três eleições (2014, 2018 e 2022). A partir de uma leitura geográfica dos resultados eleitorais, mostramos em quais regiões o desempenho da esquerda para presidente não se converteu em votos para deputado federal e se essa distância aumentou ou diminuiu ao longo do tempo. Para definir quais partidos compõem o campo da esquerda, utilizamos a classificação proposta por Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023).
Uma análise a partir da geografia espacial do voto
No mapa abaixo organizamos por municípios o voto em partidos de esquerda para presidente (no 1° turno) e Deputado Federal.

Entre 2014 e 2018, a esquerda perdeu votos em escala nacional tanto nas eleições presidenciais quanto nas legislativas. Parte do desempenho excepcional em 2014 se explica pela candidatura de Marina Silva pelo PSB, então classificada no campo da esquerda, o que inflou os resultados naquele pleito.
A partir de 2018, no entanto, mesmo com a retração do apoio em estados do Centro-Sul e do Centro-Oeste, os principais redutos presidenciais da esquerda – especialmente no Norte e no Nordeste – permaneceram relativamente estáveis. Esse padrão de continuidade, contudo, não se repetiu nas eleições para deputado federal, onde o apoio à esquerda mostrou-se muito mais fragmentado territorialmente.
Em 2022, mesmo no embalo da candidatura de Lula (PT), a esquerda perdeu votos em praticamente todos os estados do Nordeste para deputado federal. O resultado foi um padrão contraintuitivo: unidades federativas de maioria bolsonarista, como Santa Catarina e o Distrito Federal, apresentaram desempenho legislativo da esquerda (17,2% e 26,7%, respectivamente) superior ou comparável ao de estados nordestinos com forte votação presidencial lulista, como Sergipe (16,7%) e Alagoas (13,4%).
Esse contraste reflete diferentes graus de desalinhamento entre o voto presidencial e o legislativo. Enquanto em estados do Sul e do Centro-Oeste a distância entre os dois votos ficou em torno de 14 a 15 pontos percentuais, em partes do Nordeste ela ultrapassou os 45 pontos. Casos como Amazonas e Tocantins, que reiteradamente votam na esquerda para presidente, mas registraram apenas 8% e 11% dos votos para deputado federal em 2022, ilustram com clareza esse desencaixe.
O gráfico e o mapa abaixo sintetizam esse padrão ao mostrar, por estado, a diferença entre a votação da esquerda para presidente e para deputado federal em 2022.


A partir de técnicas estatísticas foi possível perceber que em 2022 o voto legislativo de esquerda foi menos disperso do que nas demais eleições, ou seja, concentrou-se menos em redutos do que no ano de 2018. Além disso, também foi menos relacionada com o voto no executivo. Ambos os resultados explicam a derrocada legislativa da esquerda em estados de maioria lulista e sua leve melhora em estados bolsonaristas ocorrida em 2022.
A análise das eleições recentes indica que o desempenho legislativo da esquerda nem sempre acompanha sua votação presidencial. Em alguns casos, esse resultado parece estar associado a fatores políticos subnacionais, como a presença de governadores de esquerda, como no Ceará e no Piauí, ou a uma inserção histórica mais profunda de partidos de esquerda na sociedade civil, como ocorre no Rio Grande do Sul. Não por acaso, em 2022, esses três estados registraram alguns dos melhores desempenhos legislativos da esquerda no país.

Do ponto de vista institucional, esse padrão não é surpreendente. Em sistemas presidencialistas, eleições para o Executivo e para o Legislativo são disputas distintas, com lógicas próprias e incentivos diferentes para eleitores e partidos, especialmente quando se considera a diferença entre arenas nacionais e dinâmicas políticas locais.
No entanto, nota-se que a dessemelhança de resultados eleitorais tem trazido severas dificuldades ao campo político da esquerda e ao governo federal, com as preferências médias do parlamento sendo significativamente diferentes daquelas do executivo.
Compreender a relação entre esses dois tipos de voto é, portanto, fundamental não apenas para interpretar as tensões atuais entre Executivo e Legislativo, mas também para antecipar os desafios eleitorais de 2026 e as estratégias que diferentes campos políticos precisarão adotar para reduzir ou explorar esse descompasso.
Sobre os autores
João Marcelo Lima Barra é Graduado em Ciências Sociais na USP, membro do Portal da Classe Política e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).
Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.

