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  • Curitiba e as bases sociais do voto: uma análise a partir da escolaridade dos eleitores nas eleições presidenciais desde 2014 na capital paranaense

    Curitiba e as bases sociais do voto: uma análise a partir da escolaridade dos eleitores nas eleições presidenciais desde 2014 na capital paranaense

    Por João Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz

    Em 2014, os locais de votação de Curitiba com menor proporção de eleitores com ensino superior tendiam a votar mais no PT. Em 2022, esse padrão parece ter se enfraquecido. O que mudou na relação entre escolaridade e voto presidencial na capital paranaense?

    As eleições presidenciais recentes no Brasil tem se dado a partir de certas divisões. É comum em manchetes de jornal dos principais veículos de comunicação se noticiar a diferenciação no voto que características como renda, religião e gênero provocam.

    A partir de 2006, com a reeleição de Lula, um conjunto de cientistas políticos passaram a chamar especial atenção para a clivagem de renda, mostrando-a como determinante para a vitória do candidato petista. O professor da USP André Singer intitulou o fenômeno como “um realinhamento eleitoral”, momento que a ciência política descreve quando uma parcela de eleitores se desloca de um campo político para o outro. Nesse caso, os eleitores que haviam se deslocado teriam sido os mais pobres, que anteriormente votariam na direita, que passaram a votar em massa no Partido dos Trabalhadores (PT). Em contrapartida, a classe média urbana do sul e sudeste, base “tradicional” do PT, teria passado a votar no PSDB, junto dos mais ricos.

    Desde então, um conjunto de novas características têm sido apresentadas como predominantes, como o eleitorado evangélico e a diferenciação por gênero do eleitorado. Além disso,  em termos mais conjunturais, a candidatura de Lula em 2022 através de alianças com antigas figuras de oposição ao seu governo procurou acenar para o eleitorado de maior renda. Por outro lado, Bolsonaro procurou tomar a pauta do Bolsa Família, então tornado em Auxílio Brasil, para si, procurando avançar sobre um eleitorado tradicionalmente petista.

    Neste texto, examinamos em que medida essa clivagem eleitoral ainda pode ser observada em uma grande metrópole brasileira, tomando Curitiba como estudo de caso. Para isso, utilizamos uma escala mais desagregada de análise: os locais de votação. O Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza tanto informações sobre o perfil de escolaridade do eleitorado registrado em cada local quanto os resultados eleitorais nessa mesma unidade. A partir do cruzamento dessas informações, buscamos observar se há correlação entre a proporção de eleitores com ensino superior em cada local de votação e o desempenho dos candidatos do PT no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, 2018 e 2022.

    Antes de apresentar os dados, é importante destacar duas ressalvas nessa análise. A primeira é que escolaridade e renda não são variáveis idênticas, embora frequentemente estejam associadas no espaço urbano. Em Curitiba, por exemplo, bairros com maior proporção de eleitores com ensino superior, como Batel e Bigorrilho, também tendem a concentrar rendas mais elevadas. Por isso, a escolaridade pode ser tratada aqui como um indicador aproximado do perfil socioeconômico dos territórios, mas não como uma medida direta de renda. A segunda ressalva é que os dados utilizados não se referem ao eleitor individual, mas ao local de votação. Portanto, eles não permitem afirmar como votaram eleitores de diferentes níveis de escolaridade. O que a análise permite observar é se locais de votação com diferentes perfis educacionais apresentaram padrões distintos de votação presidencial ao longo do tempo.

    Dados e Análises

    Inicialmente, ao fazermos um gráfico de dispersão comparando o percentual de voto nos candidatos do PT e o percentual de pessoas no local de votação com ensino superior se percebe que ao longo das últimas três eleições há uma tendência de alteração em relação ao padrão anterior.

    Gráfico 1 – Escolaridade e voto no PT no 2° turno por local de votação em Curitiba (2014 – 2022) 

    Fonte: Elaboração própria com base em TSE (2014 -2022).

    No gráfico acima, cada ponto vermelho representa um local de votação, no eixo horizontal está representado a porcentagem de eleitores desse local com ensino superior e no vertical a porcentagem de votos dada ao candidato do PT no segundo turno da eleição presidencial. Como se percebe, enquanto em 2014 o fenômeno aparece segundo a tese do realinhamento, ou seja, os locais com menor escolaridade proporcional votam mais no PT do que os demais, esse fenômeno se altera até em 2022 ele praticamente inexistir.

    No gráfico 2, organizamos esses dados em decis da proporção de ensino superior por local de votação. Ou seja, para facilitar a comparação, os locais de votação foram divididos em dez grupos de tamanho semelhante. O primeiro grupo reúne os locais com menor proporção de eleitores com ensino superior; o décimo reúne os locais com maior proporção. Em seguida, foi calculado o percentual médio de votos no candidato do PT em cada grupo.

    Gráfico 2 – Voto no PT no 2° turno por decis de escolaridade dos locais de votação em Curitiba (2014–2022) 

    Fonte: Elaboração própria com base em TSE (2014 -2022).

    Como indica o Gráfico 2, em 2014 havia uma tendência decrescente, onde quanto maior o decil de escolaridade do local de votação, menor tendia a ser o percentual de votos no candidato do PT. Em 2018 e 2022, porém, essa diferença entre os locais menos e mais escolarizados tornou-se muito menos expressiva. Isso sugere que, em Curitiba, a associação entre perfil educacional dos locais de votação e voto presidencial no PT se tornou menos nítida nas eleições recentes. Como escolaridade e renda costumam estar associadas no espaço urbano, esse resultado também levanta hipóteses sobre possíveis mudanças nas bases sociais do voto por renda, embora essa relação não possa ser demonstrada diretamente com os dados utilizados.

    A comparação entre 2014 e 2022 também sugere que a principal mudança ocorreu nos locais de votação com maior proporção de eleitores com ensino superior. Embora tenha havido alguma variação nos locais menos escolarizados, o movimento mais expressivo parece estar no aumento relativo da votação petista nos locais mais escolarizados. Em outras palavras, o padrão observado em 2014 não desaparece apenas por uma eventual redução do voto no PT nos locais de menor escolaridade, mas sobretudo porque os locais mais escolarizados passaram a registrar desempenho mais elevado do candidato petista.

    Considerações a partir de Curitiba e hipóteses para uma agenda de pesquisa

    Os dados apresentados nesta análise não permitem afirmar que a clivagem educacional ou de renda tenha desaparecido em Curitiba, tampouco que o mesmo movimento esteja ocorrendo no Brasil como um todo. O que eles sugerem é algo mais específico e, talvez, mais interessante. A relação entre perfil socioeducacional dos territórios e voto presidencial parece ter se tornado menos linear na capital paranaense entre 2014 e 2022. Em 2014, os locais de votação com menor proporção de eleitores com ensino superior apresentavam votação proporcionalmente maior no candidato do PT. Nas eleições seguintes, essa diferença se tornou menos nítida, sobretudo pelo crescimento relativo do voto petista nos locais mais escolarizados.

    Essa mudança não deve ser lida, necessariamente, como o fim das bases sociais do voto. Uma interpretação mais prudente é tratá-la como sinal de uma possível recomposição. Escolaridade e renda podem continuar importando, mas talvez passem a operar por meio de novas mediações que surgiram em nosso contexto, como a rejeição a candidatos específicos, polarização política, avaliação dos governos, estratégias de campanha, composição das alianças eleitorais e mudanças no próprio perfil social dos grandes centros urbanos. Em eleições muito polarizadas, fatores conjunturais podem reduzir a previsibilidade de clivagens sociais tradicionais, especialmente em capitais marcadas por maior heterogeneidade territorial e maior exposição ao debate político nacional.

    O caso de Curitiba, portanto, abre mais perguntas do que oferece respostas definitivas. A mudança observada expressa uma transformação estrutural nas bases sociais da competição presidencial? Ou reflete condições específicas das eleições de 2018 e 2022, marcadas por um contexto político particular e polarizado? Esse padrão também aparece em outras capitais brasileiras ou é uma característica específica da capital paranaense? E, caso se repita em 2026, indicará uma continuidade da polarização com o bolsonarismo ou uma recomposição mais duradoura do vínculo entre território, escolaridade, renda e voto?

    Para responder a essas perguntas, será necessário ampliar a análise para outras cidades, incorporar indicadores socioeconômicos adicionais e, sempre que possível, combinar dados territoriais com pesquisas de opinião em nível individual. Ainda assim, os resultados apresentados já indicam a importância de observar as bases sociais do voto não como estruturas fixas, mas como relações historicamente situadas, que podem se reorganizar conforme mudam os candidatos, os conflitos políticos e os próprios territórios urbanos. Em um contexto eleitoral marcado por intensa polarização, compreender essas recomposições é fundamental para interpretar os rumos recentes da política brasileira.

    Sobre os autores

    João Marcelo Lima Barra é Graduado em Ciências Sociais na USP, membro do Portal da Classe Política e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).

    Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites Parlamentares, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.

  • Entre o estadual e o nacional: a relação entre voto presidencial e governatorial em 2022

    Entre o estadual e o nacional: a relação entre voto presidencial e governatorial em 2022

    Por João Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz

    No sistema federalista brasileiro eleições nacionais, estaduais e municipais possuem diferentes importâncias e incentivos. Carlos Melo (2010) chamou isso de “jogos aninhados”, ou seja, disputas em que o resultado de uma arena impacta em outra. Favorece isso o calendário coincidente das eleições para presidente, senadores, governadores e deputados – gerando incentivos para os partidos coordenarem suas estratégias nas eleições.

    Nesse sentido, duas eleições em particular se destacam: para presidente e para governador. Os dois principais cargos executivos não só contam com a maior quantidade de recursos, como também organizam as demais eleições para deputados e senadores e, em alguma medida, para prefeitos, no período eleitoral posterior.

    Para os principais partidos nas eleições presidenciais as eleições para governador podem cumprir diferentes propósitos. Eleger governadores facilitaria a governabilidade de um possível futuro governo, além de também facilitar na construção de uma base no congresso nacional. Em outra direção, para esses partidos, há incentivos para lançar candidaturas mesmo sem intenção de ganhar, como forma de ampliar e capilarizar a campanha nacional. 

    Um fator central para compreender a coordenação entre eleições presidenciais e estaduais é a capacidade que grandes campanhas nacionais têm de influenciar disputas em outros níveis. Na Ciência Política, esse fenômeno é conhecido como coattail effect: a ideia de que um candidato muito visível e popular (como o presidenciável) pode atrair votos para candidatos do mesmo partido em eleições legislativas ou executivas subnacionais, que se beneficiam de sua exposição e apelo eleitoral.

    Neste texto, analisamos como esse efeito se manifestou nas eleições de 2022, examinando a capacidade dos dois partidos que polarizaram o pleito, PT e PL, de converter votos presidenciais em apoio a seus candidatos a governador. Além de medir essa relação de forma agregada, exploramos suas variações territoriais, buscando identificar em quais regiões o efeito foi mais forte e onde ele praticamente não ocorreu.

    Quem coordenou melhor? O desempenho do PT e do PL

    Inicialmente, é preciso ressaltar que agrupamos como candidaturas de cada partido para o governo do estado aquelas em que o partido constava na cabeça de chapa ou na vice, não contabilizando aquelas em que estava coligado.

    Vencedor da eleição presidencial de 2022, o PT lançou candidatos a governador ou vice em 18 estados, recorrendo a alianças em outras unidades da federação. Em linha com sua trajetória histórica, a estratégia estadual do partido esteve fortemente articulada à campanha presidencial: as candidaturas a governador funcionaram como palanques regionais para o projeto nacional, com a expectativa de que o bom desempenho de Lula se convertesse em votos para os candidatos petistas nos estados.

    Os dados indicam que essa estratégia foi, em grande medida, bem-sucedida. O gráfico de dispersão abaixo mostra uma associação positiva clara entre a votação do PT para presidente e para governador em nível municipal. Em grande parte das cidades, quanto maior foi o desempenho presidencial do partido, maior também foi a votação de seus candidatos ao governo estadual.

    O mapa que trazemos ajuda a esmiuçar o problema.  Na maioria dos estados, a votação do PT para governador acompanhou de forma bastante próxima a votação presidencial, sugerindo uma capacidade elevada de coordenação entre as duas disputas. Em estados como Mato Grosso, Goiás, Tocantins e Paraíba, no entanto, essa associação foi significativamente mais fraca. Nesses casos, a candidatura presidencial parece ter desempenhado papel central, enquanto as candidaturas ao governo estadual tiveram desempenho mais limitado, indicando estratégias mais voltadas à sustentação do palanque nacional do que à competição efetiva pelo Executivo estadual. Ele apresenta, também por município, a proporção do voto para presidente que o de governador presenta. Assim, se o voto para governador no PT foi idêntico ao para presidente o valor será 100%. Os estados que aparecem em cinza foram aqueles que não houveram candidaturas do partido.

    Mapa 1. Fonte: TSE/CEM. Elaboração Própria (2026)

    Olhando o gráfico abaixo, o padrão presente no mapa se repete, com a votação para governador acompanhando na maioria das cidades a de presidente. Na figura, cada ponto representa uma cidade e o eixo horizontal o voto para presidente e o eixo vertical para governador. A linha de tendência foi calculada com o programa Rstudio. O valor (r2) presente no gráfico representa a força da relação entre as variáveis, quanto mais próximo de 1 mais forte.

    Gráfico 1. Fonte: TSE. Elaboração própria

    No caso do PL, o padrão observado é substancialmente distinto. Embora o partido tenha disputado um número de eleições estaduais semelhante ao do PT com candidatos a governador ou vice em 17 estados, sua capacidade de converter votos presidenciais em apoio às candidaturas estaduais foi significativamente menor.

    O mapa ajuda a compreender como esse desalinhamento se distribuiu territorialmente. Em estados como Ceará e Rio de Janeiro, o desempenho das candidaturas do PL ao governo estadual acompanhou de forma relativamente próxima a votação presidencial de Bolsonaro. Já em Goiás, Minas Gerais e Bahia, observa-se um descolamento acentuado entre as duas disputas. Nesses estados, a presença de candidatos fortes da direita não filiados ao PL (casos de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e ACM Neto) limitou o espaço eleitoral do partido na corrida para governador, mesmo em contextos de votação presidencial expressiva. Nesse caso, é muito provável que as candidaturas foram feitas como forma de alavancar a candidatura nacional, sem intenções reais de vitória.

    Mapa 2. Fonte: TSE/CEM. Elaboração Própria (2026)

    O gráfico de dispersão evidencia essa diferença. Ao contrário do que se observa no caso do PT, há maior dispersão dos pontos em relação à linha de tendência, indicando uma associação mais fraca entre a votação do PL para presidente e para governador. Em termos substantivos, isso significa que um bom desempenho de Jair Bolsonaro em um município nem sempre se traduziu em votação elevada para os candidatos do partido ao governo estadual e, em alguns casos, ocorreu exatamente o oposto.

    Gráfico 2. Fonte: TSE. Elaboração própria.

    Parte desse padrão pode ser explicado por uma menor capilaridade do partido e uma estrutura recém estruturada para disputar candidaturas presidenciais. Deve-se lembrar que Bolsonaro entrou no PL em 2021, momento que o partido passou a ter maiores pretensões presidenciais. Ao passo, que desde sua fundação o PT teve como grande foco do partido a disputa da eleição presidencial, subordinando as demais eleições a essa.

    Como resultado, o partido apresentou uma capacidade de transferência de votos consistentemente inferior à do PT. Entre os fatores que ajudam a explicar esse desempenho estão a maior fragmentação do campo da direita nos estados, a forte personalização do partido em torno da figura de Bolsonaro e o histórico mais limitado de coordenação eleitoral do PL em disputas subnacionais.

    Com a aproximação das eleições de 2026 e o avanço das negociações para a formação de alianças estaduais, esses padrões ajudam a antecipar dilemas centrais da próxima disputa. A forma como partidos e lideranças nacionais conseguirão — ou não — alinhar estratégias presidenciais e estaduais tende a ser um dos fatores decisivos do próximo ciclo eleitoral.

    Sobre os autores

    João Marcelo Lima Barra é Graduado em Ciências Sociais na USP, membro do Portal da Classe Política e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).

    Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.

  • Por que a esquerda vence no Planalto, mas perde território no Legislativo? Uma análise a partir da geografia do voto

    Por que a esquerda vence no Planalto, mas perde território no Legislativo? Uma análise a partir da geografia do voto

    Por João Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz

    Em um sistema presidencialista o voto dado nas eleições legislativas por vezes é ofuscado pela grande atenção midiática que as eleições presidenciais atraem. Esse fenômeno pode muitas vezes levar eleitores a desvincularem uma eleição da outra, votando em candidatos a deputados federais que se opõem à coalizão escolhida pelo eleitor para o executivo.

    Nas eleições brasileiras, muitos eleitores escolhem um candidato a presidente de um espectro ideológico, mas votam em deputados federais de outros espectros ideológicos. Embora essa seja uma decisão legítima do ponto de vista da representação, refletindo critérios distintos na escolha de cargos diferentes, ela produz um desalinhamento entre o voto no Executivo e no Legislativo. Na prática, esse descompasso ajuda a explicar as dificuldades recorrentes de governabilidade enfrentadas pelos presidentes em sua relação com o Congresso.

    No Brasil, no caso dos partidos de esquerda esse tem sido um problema bastante evidente. Mesmo ganhando cinco das últimas seis disputas presidenciais, a esquerda nunca conseguiu traduzir esses resultados nas eleições legislativas.

    No presidencialismo de coalizão brasileiro, isso leva a uma série de problemas. Considerando o sistema partidário fragmentado, todos os presidentes, assim que empossados, precisam expandir o arco de alianças constituído ao longo da campanha. Caso a base parlamentar original seja pequena, é provável que o executivo tenha que constituir uma coalizão em um amplo espectro ideológico, o que resultaria em dificultar a governabilidade e no aumento dos custos do governo.

    No governo Lula III, o reduzido tamanho de sua base original no congresso tem ganhado contornos dramáticos. O executivo tem apresentado grande dificuldade em aprovar pautas de sua autoria, com a rejeição, inclusive, de parlamentares da coalizão governamental.

    Neste texto, analisamos onde esse desencaixe entre o voto presidencial e o legislativo é mais intenso no território brasileiro e como ele evoluiu ao longo das últimas três eleições (2014, 2018 e 2022). A partir de uma leitura geográfica dos resultados eleitorais, mostramos em quais regiões o desempenho da esquerda para presidente não se converteu em votos para deputado federal e se essa distância aumentou ou diminuiu ao longo do tempo. Para definir quais partidos compõem o campo da esquerda, utilizamos a classificação proposta por Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023).

    Uma análise a partir da geografia espacial do voto

    No mapa abaixo organizamos por municípios o voto em partidos de esquerda para presidente (no 1° turno) e Deputado Federal.

    Mapa 1. Fonte: TSE/CEM. Elaboração Própria (2026)

    Entre 2014 e 2018, a esquerda perdeu votos em escala nacional tanto nas eleições presidenciais quanto nas legislativas. Parte do desempenho excepcional em 2014 se explica pela candidatura de Marina Silva pelo PSB, então classificada no campo da esquerda, o que inflou os resultados naquele pleito.

    A partir de 2018, no entanto, mesmo com a retração do apoio em estados do Centro-Sul e do Centro-Oeste, os principais redutos presidenciais da esquerda – especialmente no Norte e no Nordeste – permaneceram relativamente estáveis. Esse padrão de continuidade, contudo, não se repetiu nas eleições para deputado federal, onde o apoio à esquerda mostrou-se muito mais fragmentado territorialmente.

    Em 2022, mesmo no embalo da candidatura de Lula (PT), a esquerda perdeu votos em praticamente todos os estados do Nordeste para deputado federal. O resultado foi um padrão contraintuitivo: unidades federativas de maioria bolsonarista, como Santa Catarina e o Distrito Federal, apresentaram desempenho legislativo da esquerda (17,2% e 26,7%, respectivamente) superior ou comparável ao de estados nordestinos com forte votação presidencial lulista, como Sergipe (16,7%) e Alagoas (13,4%).

    Esse contraste reflete diferentes graus de desalinhamento entre o voto presidencial e o legislativo. Enquanto em estados do Sul e do Centro-Oeste a distância entre os dois votos ficou em torno de 14 a 15 pontos percentuais, em partes do Nordeste ela ultrapassou os 45 pontos. Casos como Amazonas e Tocantins, que reiteradamente votam na esquerda para presidente, mas registraram apenas 8% e 11% dos votos para deputado federal em 2022, ilustram com clareza esse desencaixe.

    O gráfico e o mapa abaixo sintetizam esse padrão ao mostrar, por estado, a diferença entre a votação da esquerda para presidente e para deputado federal em 2022.

    A partir de técnicas estatísticas foi possível perceber que em 2022 o voto legislativo de esquerda foi menos disperso do que nas demais eleições, ou seja, concentrou-se menos em redutos do que no ano de 2018. Além disso, também foi menos relacionada com o voto no executivo. Ambos os resultados explicam a derrocada legislativa da esquerda em estados de maioria lulista e sua leve melhora em estados bolsonaristas ocorrida em 2022. 

    A análise das eleições recentes indica que o desempenho legislativo da esquerda nem sempre acompanha sua votação presidencial. Em alguns casos, esse resultado parece estar associado a fatores políticos subnacionais, como a presença de governadores de esquerda, como no Ceará e no Piauí, ou a uma inserção histórica mais profunda de partidos de esquerda na sociedade civil, como ocorre no Rio Grande do Sul. Não por acaso, em 2022, esses três estados registraram alguns dos melhores desempenhos legislativos da esquerda no país.

    Do ponto de vista institucional, esse padrão não é surpreendente. Em sistemas presidencialistas, eleições para o Executivo e para o Legislativo são disputas distintas, com lógicas próprias e incentivos diferentes para eleitores e partidos, especialmente quando se considera a diferença entre arenas nacionais e dinâmicas políticas locais.

    No entanto, nota-se que a dessemelhança de resultados eleitorais tem trazido severas dificuldades ao campo político da esquerda e ao governo federal, com as preferências médias do parlamento sendo significativamente diferentes daquelas do executivo. 

    Compreender a relação entre esses dois tipos de voto é, portanto, fundamental não apenas para interpretar as tensões atuais entre Executivo e Legislativo, mas também para antecipar os desafios eleitorais de 2026 e as estratégias que diferentes campos políticos precisarão adotar para reduzir ou explorar esse descompasso.

    Sobre os autores

    João Marcelo Lima Barra é Graduado em Ciências Sociais na USP, membro do Portal da Classe Política e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).

    Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.