Por João Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz
Em texto recente a respeito da relação entre escolaridade dos locais de votação e voto na cidade de Curitiba mostramos que a relação entre menor taxa de escolaridade do eleitorado e aumento do voto no PT estava se enfraquecendo na cidade, com o partido ganhando terreno em locais mais escolarizados.1 Agora, cabe perguntar, e no restante do Brasil, essa relação também existia? E se existia, ela também tinha se enfraquecido?
Para procurar responder essas perguntas usaremos os dados de escolaridade do eleitorado por local de votação disponíveis no TSE, cruzando-os com os resultados das eleições no segundo turno presidencial nesses mesmos locais. Utilizaremos os dados dos 2° turnos das eleições de 2014, 2018 e 2022, abarcando a última eleição caracterizada pela polarização PT-PSDB e as duas disputadas por Jair Bolsonaro.
Inicialmente, deve-se fazer uma breve contextualização sobre os estudos eleitorais no período pós-2002. Embora não haja consenso a respeito do que o causou, estudos sustentam que o PT passou a possuir larga vantagem no eleitorado mais pobre a partir de 2006. Essa ideia é desenvolvida na tese do realinhamento eleitoral e do “lulismo” de André Singer, que descreveu a migração da base social do PT das camadas médias urbanas para os estratos de baixa renda, baixa escolaridade e regiões periféricas, sobretudo Norte e Nordeste. Com a saída do PSDB da disputa presidencial e a ascensão de Jair Bolsonaro como nova liderança eleitoral da direita é preciso analisar se esse padrão permanece ou tem se alterado.
É importante ressaltar que os dados que trazemos não permitem fazer inferências a respeito do eleitor individual. Sendo dados agregados, eles podem nos dar algum indicativo do impacto que a escolaridade do eleitorado traz no voto do local de votação, mas não do eleitor.
Dados e Análises
Inicialmente, para realizarmos as análises dividimos os locais de votação de todo o Brasil, em média 75 mil em cada eleição, em 100 grupos, chamados de “centis” com base na porcentagem de eleitores que possuem ensino superior. Ou seja, o primeiro grupo é o que agrega os locais com menor porcentagem de eleitores com ensino superior e o último é o que agrega aqueles com maior percentual.
O gráfico abaixo mostra o padrão ao qual nos referimos no começo do texto. Em 2014 o gráfico se assemelha a um “X”, com a disputa entre Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) sendo praticamente simétrica, grande desempenho do tucano nos locais com maior escolarização do eleitorado e vitória expressiva da petista naqueles com menos. A partir dos outros pleitos isso se altera.

Já em 2018, há clara vantagem de Jair Bolsonaro (PSL) em grande parte dos centis. No entanto, não há uma clara mudança estrutural nesse pleito em comparação a 2014, Bolsonaro ampliou a votação de Aécio em quase todos os grupos indistintamente, com exceção dos mais escolarizados em que houve leve aumento da votação de Haddad (PT) em comparação com Dilma.
Esse último elemento pode ser uma espécie de “antecipação” do que ocorreria no pleito de 2022, em que há clara alteração no padrão dos anos anteriores. Em 2022 a antiga forma de “X” do gráfico some, com Lula (PT) melhorando significativamente seu desempenho nos centis finais quando comparados com os anos anteriores, o que aponta para uma mudança no padrão agregado da votação, na qual a vitória de Lula também passou por um crescimento relativo de sua votação nos locais com maior proporção de eleitores com ensino superior.
Por outro lado, Bolsonaro (PL) conseguiu reduzir a vantagem do PT nos centis iniciais, inclusive melhorando sua votação em 2022 nos grupos que agregam os locais de votação menos escolarizados. Somados, esses dois movimentos indicam que 2022 não rompe completamente com o padrão observado em 2014, mas tampouco o reproduz de forma simples. O resultado parece apontar para uma reconfiguração gradual da associação entre escolaridade agregada dos locais de votação e votação presidencial.
Além da imagem geral do país, é importante enxergar como o fenômeno se desenvolve nas diferentes regiões. No gráfico abaixo damos um panorama da votação em cada região nos últimos três pleitos a partir de lógica similar do gráfico anterior, no entanto a partir de decis de escolaridade dessa vez. Portanto, o grupo 1 agrega os locais de votação com menor proporção de ensino superior em cada região, crescendo sucessivamente até o grupo 10 que agrega os locais com maior porcentagem.

Como se vê no gráfico, as regiões possuíam comportamentos eleitorais distintos. Em 2014, em todas as regiões a direita crescia à medida que cresciam os decis e a esquerda caía. Quando olhamos para 2022 esse padrão se altera. Inicialmente, percebe-se que Jair Bolsonaro nesse pleito foi melhor que Aécio Neves nas urnas menos escolarizadas em todas as regiões do país. Movimento simétrico se dá com Lula, que performou melhor no grupo de locais com maior escolarização em todas as regiões (empatando no Norte) quando comparado com Dilma.
Possivelmente a região que mais chama atenção no gráfico é o Sudeste. Enquanto em algumas regiões, como o Nordeste e o Sul, o padrão ou não se altera ou se altera muito pouco, no Sudeste a mudança é evidente. Nessa região, o padrão existente anteriormente de urnas menos escolarizadas votarem na esquerda e as mais escolarizadas na direita é fortemente alterado em 2022, com Lula ampliando sua votação nos 5 últimos decis, quando comparado com 2014, e Bolsonaro nos 3 primeiros.
Assim, as alterações no padrão eleitoral vistas no cenário nacional são decorrentes também de movimentos de magnitudes distintas ocorridas em cada região.
Dados agregados de urna e o voto: uma agenda de pesquisa
O fenômeno apontado nesse artigo, e no último a respeito de Curitiba, é interessante por trazer elementos novos para a análise eleitoral. Se os dados apresentados estiverem corretos e o fenômeno continuar a se desenvolver, poderíamos estar diante de um cenário em que características como escolaridade passam a ter menor impacto no voto presidencial.
É necessário ressaltar que os dados apresentados também possuem caráter inicial, sendo necessário adicionar novos elementos na análise como o impacto de outras clivagens como gênero, raça e também a análise individual, algo que o tipo de dados analisado neste artigo não permite. Ao mesmo tempo, embora não seja possível analisar o nível individual de voto, eles podem nos trazer um nível de detalhamento que pesquisas eleitorais não trazem.
Portanto, embora preliminar, os apontamentos trazidos no texto trazem interessantes hipóteses para analisarmos os pleitos passados e a eleição que se aproxima. A vitória de Lula em 2022 por margens similares a de pleitos passados, como o de 2014, podem ter trazido a impressão de que ela foi uma mera repetição de padrões. Procuramos mostrar aqui que não.
Sobre os autores
João Marcelo Lima Barra é Graduado em Ciências Sociais na USP, membro do Portal da Classe Política e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).
Nilton Sainz é Doutor em Ciência Política pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e Pós-Doc na mesma instituição. É especialista em Data Science & Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ciência de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites Parlamentares, Eleições e Instituições Políticas no Brasil e na América Latina.














