{"id":287,"date":"2026-05-28T17:56:19","date_gmt":"2026-05-28T20:56:19","guid":{"rendered":"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/?p=287"},"modified":"2026-05-28T17:56:19","modified_gmt":"2026-05-28T20:56:19","slug":"curitiba-e-as-bases-sociais-do-voto-uma-analise-a-partir-da-escolaridade-dos-eleitores-nas-eleicoes-presidenciais-desde-2014-na-capital-paranaense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/index.php\/2026\/05\/28\/curitiba-e-as-bases-sociais-do-voto-uma-analise-a-partir-da-escolaridade-dos-eleitores-nas-eleicoes-presidenciais-desde-2014-na-capital-paranaense\/","title":{"rendered":"Curitiba e as bases sociais do voto: uma an\u00e1lise a partir da escolaridade dos eleitores nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais desde 2014 na capital paranaense"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Jo\u00e3o Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2014, os locais de vota\u00e7\u00e3o de Curitiba com menor propor\u00e7\u00e3o de eleitores com ensino superior tendiam a votar mais no PT. Em 2022, esse padr\u00e3o parece ter se enfraquecido. O que mudou na rela\u00e7\u00e3o entre escolaridade e voto presidencial na capital paranaense?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As elei\u00e7\u00f5es presidenciais recentes no Brasil tem se dado a partir de certas divis\u00f5es. \u00c9 comum em manchetes de jornal dos principais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o se noticiar a diferencia\u00e7\u00e3o no voto que caracter\u00edsticas como renda, religi\u00e3o e g\u00eanero provocam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de 2006, com a reelei\u00e7\u00e3o de Lula, um conjunto de cientistas pol\u00edticos passaram a chamar especial aten\u00e7\u00e3o para a clivagem de renda, mostrando-a como determinante para a vit\u00f3ria do candidato petista. O professor da USP Andr\u00e9 Singer intitulou o fen\u00f4meno como \u201cum realinhamento eleitoral\u201d, momento que a ci\u00eancia pol\u00edtica descreve quando uma parcela de eleitores se desloca de um campo pol\u00edtico para o outro. Nesse caso, os eleitores que haviam se deslocado teriam sido os mais pobres, que anteriormente votariam na direita, que passaram a votar em massa no Partido dos Trabalhadores (PT). Em contrapartida, a classe m\u00e9dia urbana do sul e sudeste, base \u201ctradicional\u201d do PT, teria passado a votar no PSDB, junto dos mais ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde ent\u00e3o, um conjunto de novas caracter\u00edsticas t\u00eam sido apresentadas como predominantes, como o eleitorado evang\u00e9lico e a diferencia\u00e7\u00e3o por g\u00eanero do eleitorado. Al\u00e9m disso,&nbsp; em termos mais conjunturais, a candidatura de Lula em 2022 atrav\u00e9s de alian\u00e7as com antigas figuras de oposi\u00e7\u00e3o ao seu governo procurou acenar para o eleitorado de maior renda. Por outro lado, Bolsonaro procurou tomar a pauta do Bolsa Fam\u00edlia, ent\u00e3o tornado em Aux\u00edlio Brasil, para si, procurando avan\u00e7ar sobre um eleitorado tradicionalmente petista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste texto, examinamos em que medida essa clivagem eleitoral ainda pode ser observada em uma grande metr\u00f3pole brasileira, tomando Curitiba como estudo de caso. Para isso, utilizamos uma escala mais desagregada de an\u00e1lise: os locais de vota\u00e7\u00e3o. O Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza tanto informa\u00e7\u00f5es sobre o perfil de escolaridade do eleitorado registrado em cada local quanto os resultados eleitorais nessa mesma unidade. A partir do cruzamento dessas informa\u00e7\u00f5es, buscamos observar se h\u00e1 correla\u00e7\u00e3o entre a propor\u00e7\u00e3o de eleitores com ensino superior em cada local de vota\u00e7\u00e3o e o desempenho dos candidatos do PT no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2014, 2018 e 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de apresentar os dados, \u00e9 importante destacar duas ressalvas nessa an\u00e1lise. A primeira \u00e9 que escolaridade e renda n\u00e3o s\u00e3o vari\u00e1veis id\u00eanticas, embora frequentemente estejam associadas no espa\u00e7o urbano. Em Curitiba, por exemplo, bairros com maior propor\u00e7\u00e3o de eleitores com ensino superior, como Batel e Bigorrilho, tamb\u00e9m tendem a concentrar rendas mais elevadas. Por isso, a escolaridade pode ser tratada aqui como um indicador aproximado do perfil socioecon\u00f4mico dos territ\u00f3rios, mas n\u00e3o como uma medida direta de renda. A segunda ressalva \u00e9 que os dados utilizados n\u00e3o se referem ao eleitor individual, mas ao local de vota\u00e7\u00e3o. Portanto, eles n\u00e3o permitem afirmar como votaram eleitores de diferentes n\u00edveis de escolaridade. O que a an\u00e1lise permite observar \u00e9 se locais de vota\u00e7\u00e3o com diferentes perfis educacionais apresentaram padr\u00f5es distintos de vota\u00e7\u00e3o presidencial ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Dados e An\u00e1lises<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicialmente, ao fazermos um gr\u00e1fico de dispers\u00e3o comparando o percentual de voto nos candidatos do PT e o percentual de pessoas no local de vota\u00e7\u00e3o com ensino superior se percebe que ao longo das \u00faltimas tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es h\u00e1 uma tend\u00eancia de altera\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao padr\u00e3o anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gr\u00e1fico 1 &#8211; Escolaridade e voto no PT no 2\u00b0 turno por local de vota\u00e7\u00e3o em Curitiba (2014 &#8211; 2022)&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"917\" height=\"375\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/graficocerto1-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-289\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/graficocerto1-1.png 917w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/graficocerto1-1-300x123.png 300w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/graficocerto1-1-768x314.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 917px) 100vw, 917px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com base em TSE (2014 -2022).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No gr\u00e1fico acima, cada ponto vermelho representa um local de vota\u00e7\u00e3o, no eixo horizontal est\u00e1 representado a porcentagem de eleitores desse local com ensino superior e no vertical a porcentagem de votos dada ao candidato do PT no segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial. Como se percebe, enquanto em 2014 o fen\u00f4meno aparece segundo a tese do realinhamento, ou seja, os locais com menor escolaridade proporcional votam mais no PT do que os demais, esse fen\u00f4meno se altera at\u00e9 em 2022 ele praticamente inexistir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No gr\u00e1fico 2, organizamos esses dados em decis da propor\u00e7\u00e3o de ensino superior por local de vota\u00e7\u00e3o. Ou seja, para facilitar a compara\u00e7\u00e3o, os locais de vota\u00e7\u00e3o foram divididos em dez grupos de tamanho semelhante. O primeiro grupo re\u00fane os locais com menor propor\u00e7\u00e3o de eleitores com ensino superior; o d\u00e9cimo re\u00fane os locais com maior propor\u00e7\u00e3o. Em seguida, foi calculado o percentual m\u00e9dio de votos no candidato do PT em cada grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gr\u00e1fico 2 &#8211; Voto no PT no 2\u00b0 turno por decis de escolaridade dos locais de vota\u00e7\u00e3o em Curitiba (2014\u20132022)&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"741\" height=\"369\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/graficocerto2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-290\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/graficocerto2.png 741w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/graficocerto2-300x149.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 741px) 100vw, 741px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com base em TSE (2014 -2022).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como indica o Gr\u00e1fico 2, em 2014 havia uma tend\u00eancia decrescente, onde quanto maior o decil de escolaridade do local de vota\u00e7\u00e3o, menor tendia a ser o percentual de votos no candidato do PT. Em 2018 e 2022, por\u00e9m, essa diferen\u00e7a entre os locais menos e mais escolarizados tornou-se muito menos expressiva. Isso sugere que, em Curitiba, a associa\u00e7\u00e3o entre perfil educacional dos locais de vota\u00e7\u00e3o e voto presidencial no PT se tornou menos n\u00edtida nas elei\u00e7\u00f5es recentes. Como escolaridade e renda costumam estar associadas no espa\u00e7o urbano, esse resultado tamb\u00e9m levanta hip\u00f3teses sobre poss\u00edveis mudan\u00e7as nas bases sociais do voto por renda, embora essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o possa ser demonstrada diretamente com os dados utilizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compara\u00e7\u00e3o entre 2014 e 2022 tamb\u00e9m sugere que a principal mudan\u00e7a ocorreu nos locais de vota\u00e7\u00e3o com maior propor\u00e7\u00e3o de eleitores com ensino superior. Embora tenha havido alguma varia\u00e7\u00e3o nos locais menos escolarizados, o movimento mais expressivo parece estar no aumento relativo da vota\u00e7\u00e3o petista nos locais mais escolarizados. Em outras palavras, o padr\u00e3o observado em 2014 n\u00e3o desaparece apenas por uma eventual redu\u00e7\u00e3o do voto no PT nos locais de menor escolaridade, mas sobretudo porque os locais mais escolarizados passaram a registrar desempenho mais elevado do candidato petista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es a partir de Curitiba e<\/strong> <strong>hip\u00f3teses para uma agenda de pesquisa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados apresentados nesta an\u00e1lise n\u00e3o permitem afirmar que a clivagem educacional ou de renda tenha desaparecido em Curitiba, tampouco que o mesmo movimento esteja ocorrendo no Brasil como um todo. O que eles sugerem \u00e9 algo mais espec\u00edfico e, talvez, mais interessante. A rela\u00e7\u00e3o entre perfil socioeducacional dos territ\u00f3rios e voto presidencial parece ter se tornado menos linear na capital paranaense entre 2014 e 2022. Em 2014, os locais de vota\u00e7\u00e3o com menor propor\u00e7\u00e3o de eleitores com ensino superior apresentavam vota\u00e7\u00e3o proporcionalmente maior no candidato do PT. Nas elei\u00e7\u00f5es seguintes, essa diferen\u00e7a se tornou menos n\u00edtida, sobretudo pelo crescimento relativo do voto petista nos locais mais escolarizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa mudan\u00e7a n\u00e3o deve ser lida, necessariamente, como o fim das bases sociais do voto. Uma interpreta\u00e7\u00e3o mais prudente \u00e9 trat\u00e1-la como sinal de uma poss\u00edvel recomposi\u00e7\u00e3o. Escolaridade e renda podem continuar importando, mas talvez passem a operar por meio de novas media\u00e7\u00f5es que surgiram em nosso contexto, como a rejei\u00e7\u00e3o a candidatos espec\u00edficos, polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, avalia\u00e7\u00e3o dos governos, estrat\u00e9gias de campanha, composi\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as eleitorais e mudan\u00e7as no pr\u00f3prio perfil social dos grandes centros urbanos. Em elei\u00e7\u00f5es muito polarizadas, fatores conjunturais podem reduzir a previsibilidade de clivagens sociais tradicionais, especialmente em capitais marcadas por maior heterogeneidade territorial e maior exposi\u00e7\u00e3o ao debate pol\u00edtico nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso de Curitiba, portanto, abre mais perguntas do que oferece respostas definitivas. A mudan\u00e7a observada expressa uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural nas bases sociais da competi\u00e7\u00e3o presidencial? Ou reflete condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas das elei\u00e7\u00f5es de 2018 e 2022, marcadas por um contexto pol\u00edtico particular e polarizado? Esse padr\u00e3o tamb\u00e9m aparece em outras capitais brasileiras ou \u00e9 uma caracter\u00edstica espec\u00edfica da capital paranaense? E, caso se repita em 2026, indicar\u00e1 uma continuidade da polariza\u00e7\u00e3o com o bolsonarismo ou uma recomposi\u00e7\u00e3o mais duradoura do v\u00ednculo entre territ\u00f3rio, escolaridade, renda e voto?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para responder a essas perguntas, ser\u00e1 necess\u00e1rio ampliar a an\u00e1lise para outras cidades, incorporar indicadores socioecon\u00f4micos adicionais e, sempre que poss\u00edvel, combinar dados territoriais com pesquisas de opini\u00e3o em n\u00edvel individual. Ainda assim, os resultados apresentados j\u00e1 indicam a import\u00e2ncia de observar as bases sociais do voto n\u00e3o como estruturas fixas, mas como rela\u00e7\u00f5es historicamente situadas, que podem se reorganizar conforme mudam os candidatos, os conflitos pol\u00edticos e os pr\u00f3prios territ\u00f3rios urbanos. Em um contexto eleitoral marcado por intensa polariza\u00e7\u00e3o, compreender essas recomposi\u00e7\u00f5es \u00e9 fundamental para interpretar os rumos recentes da pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"is-style-text-subtitle has-medium-font-size is-style-text-subtitle--1 wp-block-paragraph\">Sobre os autores<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Jo\u00e3o Marcelo Lima Barra<\/strong> \u00e9 Graduado em Ci\u00eancias Sociais na USP, membro do Portal da Classe Pol\u00edtica e pesquisador do INCT Representa\u00e7\u00e3o e Legitimidade Democr\u00e1tica (ReDem).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Nilton Sainz<\/strong> \u00e9 Doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e P\u00f3s-Doc na mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 especialista em Data Science &amp; Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ci\u00eancia de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites Parlamentares, Elei\u00e7\u00f5es e Institui\u00e7\u00f5es Pol\u00edticas no Brasil e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz Em 2014, os locais de vota\u00e7\u00e3o de Curitiba com menor propor\u00e7\u00e3o de eleitores com ensino superior tendiam a votar mais no PT. Em 2022, esse padr\u00e3o parece ter se enfraquecido. O que mudou na rela\u00e7\u00e3o entre escolaridade e voto presidencial na capital paranaense? 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