{"id":268,"date":"2026-05-06T17:01:10","date_gmt":"2026-05-06T20:01:10","guid":{"rendered":"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/?p=268"},"modified":"2026-05-07T13:05:38","modified_gmt":"2026-05-07T16:05:38","slug":"quem-puxa-quem-o-efeito-puxador-de-voto-nas-eleicoes-de-2022","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/index.php\/2026\/05\/06\/quem-puxa-quem-o-efeito-puxador-de-voto-nas-eleicoes-de-2022\/","title":{"rendered":"Entre o estadual e o nacional: a rela\u00e7\u00e3o entre voto presidencial e governatorial em 2022"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Jo\u00e3o Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No sistema federalista brasileiro elei\u00e7\u00f5es nacionais, estaduais e municipais possuem diferentes import\u00e2ncias e incentivos. Carlos Melo (2010) chamou isso de \u201cjogos aninhados\u201d, ou seja, disputas em que o resultado de uma arena impacta em outra. Favorece isso o calend\u00e1rio coincidente das elei\u00e7\u00f5es para presidente, senadores, governadores e deputados &#8211; gerando incentivos para os partidos coordenarem suas estrat\u00e9gias nas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, duas elei\u00e7\u00f5es em particular se destacam: para presidente e para governador. Os dois principais cargos executivos n\u00e3o s\u00f3 contam com a maior quantidade de recursos, como tamb\u00e9m organizam as demais elei\u00e7\u00f5es para deputados e senadores e, em alguma medida, para prefeitos, no per\u00edodo eleitoral posterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os principais partidos nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais as elei\u00e7\u00f5es para governador podem cumprir diferentes prop\u00f3sitos. Eleger governadores facilitaria a governabilidade de um poss\u00edvel futuro governo, al\u00e9m de tamb\u00e9m facilitar na constru\u00e7\u00e3o de uma base no congresso nacional. Em outra dire\u00e7\u00e3o, para esses partidos, h\u00e1 incentivos para lan\u00e7ar candidaturas mesmo sem inten\u00e7\u00e3o de ganhar, como forma de ampliar e capilarizar a campanha nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um fator central para compreender a coordena\u00e7\u00e3o entre elei\u00e7\u00f5es presidenciais e estaduais \u00e9 a capacidade que grandes campanhas nacionais t\u00eam de influenciar disputas em outros n\u00edveis. Na Ci\u00eancia Pol\u00edtica, esse fen\u00f4meno \u00e9 conhecido como\u00a0<em>coattail effect<\/em>: a ideia de que um candidato muito vis\u00edvel e popular (como o presidenci\u00e1vel) pode atrair votos para candidatos do mesmo partido em elei\u00e7\u00f5es legislativas ou executivas subnacionais, que se beneficiam de sua exposi\u00e7\u00e3o e apelo eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste texto, analisamos como esse efeito se manifestou nas elei\u00e7\u00f5es de 2022, examinando a capacidade dos dois partidos que polarizaram o pleito, PT e PL, de converter votos presidenciais em apoio a seus candidatos a governador. Al\u00e9m de medir essa rela\u00e7\u00e3o de forma agregada, exploramos suas varia\u00e7\u00f5es territoriais, buscando identificar em quais regi\u00f5es o efeito foi mais forte e onde ele praticamente n\u00e3o ocorreu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quem coordenou melhor? O desempenho do PT e do PL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicialmente, \u00e9 preciso ressaltar que agrupamos como candidaturas de cada partido para o governo do estado aquelas em que o partido constava na cabe\u00e7a de chapa ou na vice, n\u00e3o contabilizando aquelas em que estava coligado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vencedor da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2022, o PT lan\u00e7ou candidatos a governador ou vice em 18 estados, recorrendo a alian\u00e7as em outras unidades da federa\u00e7\u00e3o. Em linha com sua trajet\u00f3ria hist\u00f3rica, a estrat\u00e9gia estadual do partido esteve fortemente articulada \u00e0 campanha presidencial: as candidaturas a governador funcionaram como palanques regionais para o projeto nacional, com a expectativa de que o bom desempenho de Lula se convertesse em votos para os candidatos petistas nos estados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados indicam que essa estrat\u00e9gia foi, em grande medida, bem-sucedida. O gr\u00e1fico de dispers\u00e3o abaixo mostra uma associa\u00e7\u00e3o positiva clara entre a vota\u00e7\u00e3o do PT para presidente e para governador em n\u00edvel municipal. Em grande parte das cidades, quanto maior foi o desempenho presidencial do partido, maior tamb\u00e9m foi a vota\u00e7\u00e3o de seus candidatos ao governo estadual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mapa que trazemos ajuda a esmiu\u00e7ar o problema.&nbsp; Na maioria dos estados, a vota\u00e7\u00e3o do PT para governador acompanhou de forma bastante pr\u00f3xima a vota\u00e7\u00e3o presidencial, sugerindo uma capacidade elevada de coordena\u00e7\u00e3o entre as duas disputas. Em estados como Mato Grosso, Goi\u00e1s, Tocantins e Para\u00edba, no entanto, essa associa\u00e7\u00e3o foi significativamente mais fraca. Nesses casos, a candidatura presidencial parece ter desempenhado papel central, enquanto as candidaturas ao governo estadual tiveram desempenho mais limitado, indicando estrat\u00e9gias mais voltadas \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o do palanque nacional do que \u00e0 competi\u00e7\u00e3o efetiva pelo Executivo estadual. Ele apresenta, tamb\u00e9m por munic\u00edpio, a propor\u00e7\u00e3o do voto para presidente que o de governador presenta. Assim, se o voto para governador no PT foi id\u00eantico ao para presidente o valor ser\u00e1 100%. Os estados que aparecem em cinza foram aqueles que n\u00e3o houveram candidaturas do partido.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"478\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-4-1024x478.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-273\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-4-1024x478.png 1024w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-4-300x140.png 300w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-4-768x359.png 768w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-4.png 1026w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mapa 1. Fonte: TSE\/CEM. Elabora\u00e7\u00e3o Pr\u00f3pria (2026)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olhando o gr\u00e1fico abaixo, o padr\u00e3o presente no mapa se repete, com a vota\u00e7\u00e3o para governador acompanhando na maioria das cidades a de presidente. Na figura, cada ponto representa uma cidade e o eixo horizontal o voto para presidente e o eixo vertical para governador. A linha de tend\u00eancia foi calculada com o programa Rstudio. O valor (r2) presente no gr\u00e1fico representa a for\u00e7a da rela\u00e7\u00e3o entre as vari\u00e1veis, quanto mais pr\u00f3ximo de 1 mais forte.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"792\" height=\"437\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-280\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7.png 792w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7-300x166.png 300w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7-768x424.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 792px) 100vw, 792px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gr\u00e1fico 1. Fonte: TSE. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso do PL, o padr\u00e3o observado \u00e9 substancialmente distinto. Embora o partido tenha disputado um n\u00famero de elei\u00e7\u00f5es estaduais semelhante ao do PT com candidatos a governador ou vice em 17 estados, sua capacidade de converter votos presidenciais em apoio \u00e0s candidaturas estaduais foi significativamente menor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mapa ajuda a compreender como esse desalinhamento se distribuiu territorialmente. Em estados como Cear\u00e1 e Rio de Janeiro, o desempenho das candidaturas do PL ao governo estadual acompanhou de forma relativamente pr\u00f3xima a vota\u00e7\u00e3o presidencial de Bolsonaro. J\u00e1 em Goi\u00e1s, Minas Gerais e Bahia, observa-se um descolamento acentuado entre as duas disputas. Nesses estados, a presen\u00e7a de candidatos fortes da direita n\u00e3o filiados ao PL (casos de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e ACM Neto) limitou o espa\u00e7o eleitoral do partido na corrida para governador, mesmo em contextos de vota\u00e7\u00e3o presidencial expressiva. Nesse caso, \u00e9 muito prov\u00e1vel que as candidaturas foram feitas como forma de alavancar a candidatura nacional, sem inten\u00e7\u00f5es reais de vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"478\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-6-1024x478.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-275\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-6-1024x478.png 1024w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-6-300x140.png 300w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-6-768x359.png 768w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-6.png 1026w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mapa 2. Fonte: TSE\/CEM. Elabora\u00e7\u00e3o Pr\u00f3pria (2026)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O gr\u00e1fico de dispers\u00e3o evidencia essa diferen\u00e7a. Ao contr\u00e1rio do que se observa no caso do PT, h\u00e1 maior dispers\u00e3o dos pontos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linha de tend\u00eancia, indicando uma associa\u00e7\u00e3o mais fraca entre a vota\u00e7\u00e3o do PL para presidente e para governador. Em termos substantivos, isso significa que um bom desempenho de Jair Bolsonaro em um munic\u00edpio nem sempre se traduziu em vota\u00e7\u00e3o elevada para os candidatos do partido ao governo estadual e, em alguns casos, ocorreu exatamente o oposto.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"792\" height=\"437\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-5.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-274\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-5.png 792w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-5-300x166.png 300w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-5-768x424.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 792px) 100vw, 792px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gr\u00e1fico 2. Fonte: TSE. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte desse padr\u00e3o pode ser explicado por uma menor capilaridade do partido e uma estrutura rec\u00e9m estruturada para disputar candidaturas presidenciais. Deve-se lembrar que Bolsonaro entrou no PL em 2021, momento que o partido passou a ter maiores pretens\u00f5es presidenciais. Ao passo, que desde sua funda\u00e7\u00e3o o PT teve como grande foco do partido a disputa da elei\u00e7\u00e3o presidencial, subordinando as demais elei\u00e7\u00f5es a essa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como resultado, o partido apresentou uma capacidade de transfer\u00eancia de votos consistentemente inferior \u00e0 do PT. Entre os fatores que ajudam a explicar esse desempenho est\u00e3o a maior fragmenta\u00e7\u00e3o do campo da direita nos estados, a forte personaliza\u00e7\u00e3o do partido em torno da figura de Bolsonaro e o hist\u00f3rico mais limitado de coordena\u00e7\u00e3o eleitoral do PL em disputas subnacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a aproxima\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es de 2026 e o avan\u00e7o das negocia\u00e7\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as estaduais, esses padr\u00f5es ajudam a antecipar dilemas centrais da pr\u00f3xima disputa. A forma como partidos e lideran\u00e7as nacionais conseguir\u00e3o \u2014 ou n\u00e3o \u2014 alinhar estrat\u00e9gias presidenciais e estaduais tende a ser um dos fatores decisivos do pr\u00f3ximo ciclo eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"is-style-text-subtitle has-medium-font-size is-style-text-subtitle--1 wp-block-paragraph\">Sobre os autores<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Jo\u00e3o Marcelo Lima Barra<\/strong> \u00e9 Graduado em Ci\u00eancias Sociais na USP, membro do Portal da Classe Pol\u00edtica e pesquisador do INCT Representa\u00e7\u00e3o e Legitimidade Democr\u00e1tica (ReDem).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Nilton Sainz<\/strong> \u00e9 Doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e P\u00f3s-Doc na mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 especialista em Data Science &amp; Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ci\u00eancia de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Elei\u00e7\u00f5es e Institui\u00e7\u00f5es Pol\u00edticas no Brasil e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz No sistema federalista brasileiro elei\u00e7\u00f5es nacionais, estaduais e municipais possuem diferentes import\u00e2ncias e incentivos. Carlos Melo (2010) chamou isso de \u201cjogos aninhados\u201d, ou seja, disputas em que o resultado de uma arena impacta em outra. 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