{"id":249,"date":"2026-04-22T13:07:09","date_gmt":"2026-04-22T16:07:09","guid":{"rendered":"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/?p=249"},"modified":"2026-04-22T13:07:09","modified_gmt":"2026-04-22T16:07:09","slug":"por-que-a-esquerda-vence-no-planalto-mas-perde-territorio-no-legislativo-uma-analise-a-partir-da-geografia-do-voto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/index.php\/2026\/04\/22\/por-que-a-esquerda-vence-no-planalto-mas-perde-territorio-no-legislativo-uma-analise-a-partir-da-geografia-do-voto\/","title":{"rendered":"Por que a esquerda vence no Planalto, mas perde territ\u00f3rio no Legislativo? Uma an\u00e1lise a partir da geografia do voto"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Jo\u00e3o Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Em um sistema presidencialista o voto dado nas elei\u00e7\u00f5es legislativas por vezes \u00e9 ofuscado pela grande aten\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica que as elei\u00e7\u00f5es presidenciais atraem. Esse fen\u00f4meno pode muitas vezes levar eleitores a desvincularem uma elei\u00e7\u00e3o da outra, votando em candidatos a deputados federais que se op\u00f5em \u00e0 coaliz\u00e3o escolhida pelo eleitor para o executivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras, muitos eleitores escolhem um candidato a presidente de um espectro ideol\u00f3gico, mas votam em deputados federais de outros espectros ideol\u00f3gicos. Embora essa seja uma decis\u00e3o leg\u00edtima do ponto de vista da representa\u00e7\u00e3o, refletindo crit\u00e9rios distintos na escolha de cargos diferentes, ela produz um desalinhamento entre o voto no Executivo e no Legislativo. Na pr\u00e1tica, esse descompasso ajuda a explicar as dificuldades recorrentes de governabilidade enfrentadas pelos presidentes em sua rela\u00e7\u00e3o com o Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, no caso dos partidos de esquerda esse tem sido um problema bastante evidente. Mesmo ganhando cinco das \u00faltimas seis disputas presidenciais, a esquerda nunca conseguiu traduzir esses resultados nas elei\u00e7\u00f5es legislativas.<\/p>\n\n\n\n<p>No presidencialismo de coaliz\u00e3o brasileiro, isso leva a uma s\u00e9rie de problemas. Considerando o sistema partid\u00e1rio fragmentado, todos os presidentes, assim que empossados, precisam expandir o arco de alian\u00e7as constitu\u00eddo ao longo da campanha. Caso a base parlamentar original seja pequena, \u00e9 prov\u00e1vel que o executivo tenha que constituir uma coaliz\u00e3o em um amplo espectro ideol\u00f3gico, o que resultaria em dificultar a governabilidade e no aumento dos custos do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>No governo Lula III, o reduzido tamanho de sua base original no congresso tem ganhado contornos dram\u00e1ticos. O executivo tem apresentado grande dificuldade em aprovar pautas de sua autoria, com a rejei\u00e7\u00e3o, inclusive, de parlamentares da coaliz\u00e3o governamental.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste texto, analisamos onde esse desencaixe entre o voto presidencial e o legislativo \u00e9 mais intenso no territ\u00f3rio brasileiro e como ele evoluiu ao longo das \u00faltimas tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es (2014, 2018 e 2022). A partir de uma leitura geogr\u00e1fica dos resultados eleitorais, mostramos em quais regi\u00f5es o desempenho da esquerda para presidente n\u00e3o se converteu em votos para deputado federal e se essa dist\u00e2ncia aumentou ou diminuiu ao longo do tempo. Para definir quais partidos comp\u00f5em o campo da esquerda, utilizamos a classifica\u00e7\u00e3o proposta por Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma an\u00e1lise a partir da geografia espacial do voto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No mapa abaixo organizamos por munic\u00edpios o voto em partidos de esquerda para presidente (no 1\u00b0 turno) e Deputado Federal.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"691\" height=\"711\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-250\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image.png 691w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-292x300.png 292w\" sizes=\"auto, (max-width: 691px) 100vw, 691px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mapa 1. Fonte: TSE\/CEM. Elabora\u00e7\u00e3o Pr\u00f3pria (2026)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Entre 2014 e 2018, a esquerda perdeu votos em escala nacional tanto nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais quanto nas legislativas. Parte do desempenho excepcional em 2014 se explica pela candidatura de Marina Silva pelo PSB, ent\u00e3o classificada no campo da esquerda, o que inflou os resultados naquele pleito.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 2018, no entanto, mesmo com a retra\u00e7\u00e3o do apoio em estados do Centro-Sul e do Centro-Oeste, os principais redutos presidenciais da esquerda &#8211; especialmente no Norte e no Nordeste &#8211; permaneceram relativamente est\u00e1veis. Esse padr\u00e3o de continuidade, contudo, n\u00e3o se repetiu nas elei\u00e7\u00f5es para deputado federal, onde o apoio \u00e0 esquerda mostrou-se muito mais fragmentado territorialmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2022, mesmo no embalo da candidatura de Lula (PT), a esquerda perdeu votos em praticamente todos os estados do Nordeste para deputado federal. O resultado foi um padr\u00e3o contraintuitivo: unidades federativas de maioria bolsonarista, como Santa Catarina e o Distrito Federal, apresentaram desempenho legislativo da esquerda (17,2% e 26,7%, respectivamente) superior ou compar\u00e1vel ao de estados nordestinos com forte vota\u00e7\u00e3o presidencial lulista, como Sergipe (16,7%) e Alagoas (13,4%).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse contraste reflete diferentes graus de desalinhamento entre o voto presidencial e o legislativo. Enquanto em estados do Sul e do Centro-Oeste a dist\u00e2ncia entre os dois votos ficou em torno de 14 a 15 pontos percentuais, em partes do Nordeste ela ultrapassou os 45 pontos. Casos como Amazonas e Tocantins, que reiteradamente votam na esquerda para presidente, mas registraram apenas 8% e 11% dos votos para deputado federal em 2022, ilustram com clareza esse desencaixe.<\/p>\n\n\n\n<p>O gr\u00e1fico e o mapa abaixo sintetizam esse padr\u00e3o ao mostrar, por estado, a diferen\u00e7a entre a vota\u00e7\u00e3o da esquerda para presidente e para deputado federal em 2022.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"805\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Grafico2-1024x805.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-257\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Grafico2-1024x805.png 1024w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Grafico2-300x236.png 300w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Grafico2-768x604.png 768w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Grafico2.png 1263w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"786\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-3-1024x786.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-252\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-3-1024x786.png 1024w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-3-300x230.png 300w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-3-768x589.png 768w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-3.png 1294w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A partir de t\u00e9cnicas estat\u00edsticas foi poss\u00edvel perceber que em 2022 o voto legislativo de esquerda foi menos disperso do que nas demais elei\u00e7\u00f5es, ou seja, concentrou-se menos em redutos do que no ano de 2018. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m foi menos relacionada com o voto no executivo. Ambos os resultados explicam a derrocada legislativa da esquerda em estados de maioria lulista e sua leve melhora em estados bolsonaristas ocorrida em 2022.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise das elei\u00e7\u00f5es recentes indica que o desempenho legislativo da esquerda nem sempre acompanha sua vota\u00e7\u00e3o presidencial. Em alguns casos, esse resultado parece estar associado a fatores pol\u00edticos subnacionais, como a presen\u00e7a de governadores de esquerda, como no Cear\u00e1 e no Piau\u00ed, ou a uma inser\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica mais profunda de partidos de esquerda na sociedade civil, como ocorre no Rio Grande do Sul. N\u00e3o por acaso, em 2022, esses tr\u00eas estados registraram alguns dos melhores desempenhos legislativos da esquerda no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"512\" src=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/correlacao_voto_esquerda_2022-1024x512.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-258\" srcset=\"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/correlacao_voto_esquerda_2022-1024x512.png 1024w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/correlacao_voto_esquerda_2022-300x150.png 300w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/correlacao_voto_esquerda_2022-768x384.png 768w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/correlacao_voto_esquerda_2022-1536x768.png 1536w, https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/correlacao_voto_esquerda_2022-2048x1024.png 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista institucional, esse padr\u00e3o n\u00e3o \u00e9 surpreendente. Em sistemas presidencialistas, elei\u00e7\u00f5es para o Executivo e para o Legislativo s\u00e3o disputas distintas, com l\u00f3gicas pr\u00f3prias e incentivos diferentes para eleitores e partidos, especialmente quando se considera a diferen\u00e7a entre arenas nacionais e din\u00e2micas pol\u00edticas locais.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, nota-se que a dessemelhan\u00e7a de resultados eleitorais tem trazido severas dificuldades ao campo pol\u00edtico da esquerda e ao governo federal, com as prefer\u00eancias m\u00e9dias do parlamento sendo significativamente diferentes daquelas do executivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Compreender a rela\u00e7\u00e3o entre esses dois tipos de voto \u00e9, portanto, fundamental n\u00e3o apenas para interpretar as tens\u00f5es atuais entre Executivo e Legislativo, mas tamb\u00e9m para antecipar os desafios eleitorais de 2026 e as estrat\u00e9gias que diferentes campos pol\u00edticos precisar\u00e3o adotar para reduzir ou explorar esse descompasso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"is-style-text-subtitle has-medium-font-size is-style-text-subtitle--1\">Sobre os autores<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Jo\u00e3o Marcelo Lima Barra<\/strong> \u00e9 Graduado em Ci\u00eancias Sociais na USP, membro do Portal da Classe Pol\u00edtica e pesquisador do INCT Representa\u00e7\u00e3o e Legitimidade Democr\u00e1tica (ReDem).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Nilton Sainz<\/strong> \u00e9 Doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela UFPR, Professor Colaborador do PPGCP-UFPR e P\u00f3s-Doc na mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 especialista em Data Science &amp; Big Data pela UFPR, editor do blog DataDem e coordena os projetos de Ci\u00eancia de Dados do INCT-ReDem. Pesquisa Elites, Elei\u00e7\u00f5es e Institui\u00e7\u00f5es Pol\u00edticas no Brasil e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Marcelo Lima Barra e Nilton Sainz Em um sistema presidencialista o voto dado nas elei\u00e7\u00f5es legislativas por vezes \u00e9 ofuscado pela grande aten\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica que as elei\u00e7\u00f5es presidenciais atraem. 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