{"id":158,"date":"2026-01-18T21:53:53","date_gmt":"2026-01-19T00:53:53","guid":{"rendered":"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/?p=158"},"modified":"2026-01-18T23:13:26","modified_gmt":"2026-01-19T02:13:26","slug":"eleicoes-2024-a-persistente-sub-representacao-de-mulheres-na-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redem.c3sl.ufpr.br\/blog\/index.php\/2026\/01\/18\/eleicoes-2024-a-persistente-sub-representacao-de-mulheres-na-politica\/","title":{"rendered":"A Persistente Sub-Representa\u00e7\u00e3o de Mulheres na Pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por <strong>Maria Cec\u00edlia Eduardo e Karolina Roeder<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos avan\u00e7os nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as mulheres ainda enfrentam uma sub-representa\u00e7\u00e3o significativa na pol\u00edtica. Este texto explora as raz\u00f5es hist\u00f3ricas, culturais e estruturais que perpetuam essa desigualdade, destacando como a divis\u00e3o entre as esferas p\u00fablica e privada, o capital homossocial e as normas pol\u00edticas liberais contribuem para a exclus\u00e3o das mulheres. Al\u00e9m disso, analisa as medidas que t\u00eam sido implementadas para mitigar essas desigualdades e sugere a necessidade de uma abordagem cr\u00edtica e inclusiva para alcan\u00e7ar uma representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica verdadeiramente democr\u00e1tica. Apesar dos avan\u00e7os nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as mulheres ainda enfrentam uma sub-representa\u00e7\u00e3o significativa na pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto explora as raz\u00f5es hist\u00f3ricas, culturais e estruturais que perpetuam essa desigualdade, destacando como a divis\u00e3o entre as esferas p\u00fablica e privada, o capital homossocial e as normas pol\u00edticas liberais contribuem para a exclus\u00e3o das mulheres. Al\u00e9m disso, analisa as medidas que t\u00eam sido implementadas para mitigar essas desigualdades e sugere a necessidade de uma abordagem cr\u00edtica e inclusiva para alcan\u00e7ar uma representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica verdadeiramente democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o das mulheres na pol\u00edtica \u00e9 um tema que precisa ser visto sob a perspectiva da hist\u00f3ria e das estruturas sociais. As democracias modernas, desde os s\u00e9culos XVII e XVIII, foram constru\u00eddas com base em uma divis\u00e3o clara entre o p\u00fablico e o privado. Pensadores como John Locke e Jean-Jacques Rousseau ajudaram a definir essa separa\u00e7\u00e3o, onde o espa\u00e7o privado, associado ao lar e \u00e0 maternidade, era visto como o &#8220;universo feminino&#8221;, enquanto a esfera p\u00fablica, ligada \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 sociedade civil, era considerada &#8220;masculina&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa divis\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 limitou as mulheres ao espa\u00e7o dom\u00e9stico, mas tamb\u00e9m desvalorizou o trabalho realizado nesse ambiente e refor\u00e7ou estere\u00f3tipos de g\u00eanero que ainda hoje dificultam a plena participa\u00e7\u00e3o das mulheres na esfera p\u00fablica. Os direitos e a liberdade civil, conforme defendidos por muitos, eram privil\u00e9gios masculinos. Carole Pateman destaca que &#8220;a liberdade civil n\u00e3o \u00e9 universal \u2013 \u00e9 um atributo masculino e depende do direito patriarcal&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Te\u00f3ricas feministas criticam a ideia de que as normas pol\u00edticas liberais s\u00e3o neutras e universais. Nancy Fraser, Carole Pateman e Jane Mansbridge apontam que essas normas s\u00e3o baseadas em padr\u00f5es culturais que favorecem alguns grupos sobre outros, resultando em um tratamento privilegiado para os homens. Na pr\u00e1tica, a suposta neutralidade das regras pol\u00edticas perpetua a desigualdade de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com mudan\u00e7as no modelo de organiza\u00e7\u00e3o do Estado liberal, suas institui\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o s\u00e3o neutras em termos de g\u00eanero. As rela\u00e7\u00f5es desiguais entre homens e mulheres s\u00e3o mantidas pelas estruturas existentes, limitando o desenvolvimento pleno das capacidades das mulheres e sua autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mulheres de todas as classes e etnias foram por muito tempo exclu\u00eddas da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica formal. Mesmo ap\u00f3s a conquista do direito ao voto, ainda existem barreiras informais que impedem a paridade de participa\u00e7\u00e3o. As desigualdades materiais e culturais perpetuadas pela domina\u00e7\u00e3o masculina continuam a ser um obst\u00e1culo para uma representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de capital homossocial, no campo do institucionalismo feminista, ajuda a entender a exclus\u00e3o sistem\u00e1tica das mulheres em contextos em que pr\u00e1ticas informais prevalecem. Elin Bjarneg\u00e5rd chama a aten\u00e7\u00e3o para as redes clientelistas, onde a confian\u00e7a \u00e9 crucial e a previsibilidade \u00e9 mais prov\u00e1vel entre homens devido \u00e0 import\u00e2ncia dada ao capital homossocial nas redes clientelistas. Isso perpetua a exclus\u00e3o das mulheres, que n\u00e3o s\u00e3o vistas como membros ativos nessas redes, mesmo que possuam n\u00edveis equivalentes ou superiores de capital cultural e social.<\/p>\n\n\n\n<p>O capital homossocial enfatiza a tend\u00eancia de homens colaborarem com outros homens em ambientes competitivos e inst\u00e1veis, como a pol\u00edtica. Nesses contextos, os indiv\u00edduos privilegiam as conex\u00f5es com aqueles possuem recursos importantes, normalmente homens, e preferem colaborar com aqueles que lhes conferem previsibilidade. A similaridade funciona como um atalho cognitivo, nesse sentido, dando previsibilidade aos integrantes da rede e colaborando com a exclus\u00e3o de mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Para combater essa desigualdade, medidas como a distribui\u00e7\u00e3o proporcional de recursos financeiros para candidatas mulheres, implementada no Brasil em 2018, s\u00e3o essenciais. Kristin Wylie mostrou que essa medida nivelou mais o campo de disputa e aumentou a ambi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mulheres. No entanto, a distribui\u00e7\u00e3o de recursos ainda \u00e9 controlada por partidos que muitas vezes mant\u00eam regras informais com vi\u00e9s de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando um grupo dominante estabelece as normas, aqueles que n\u00e3o se encaixam s\u00e3o percebidos como desviantes ou inferiores. As institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mesmo em democracias, ainda carregam um vi\u00e9s de g\u00eanero que restringe a entrada de mulheres nos espa\u00e7os de decis\u00e3o. Portanto, a an\u00e1lise da participa\u00e7\u00e3o feminina na pol\u00edtica deve considerar que as regras e din\u00e2micas foram estabelecidas sob crit\u00e9rios masculinos, demandando medidas espec\u00edficas para reduzir as desvantagens das mulheres na representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, o g\u00eanero molda as intera\u00e7\u00f5es sociais nas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, criando obst\u00e1culos informais que dificultam a entrada das mulheres na pol\u00edtica. Entender a teoria da representa\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial para reconhecer a import\u00e2ncia da presen\u00e7a feminina no processo pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<br><br>Ara\u00fajo, Clara. G\u00eanero e acesso ao poder legislativo no Brasil: as cotas entre as institui\u00e7\u00f5es e a cultura. Revista Brasileira de Ci\u00eancia Pol\u00edtica, Bras\u00edlia, n. 2, p. 23-59, jul.-dez. 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Biroli, Fl\u00e1via. G\u00eanero e Pol\u00edtica no Notici\u00e1rio das Revistas Semanais Brasileiras: aus\u00eancias e estere\u00f3tipos. Cadernos Pagu, S\u00e3o Paulo, v. 34, p. 269-299, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Coleman, J. S. (1990) Foundations of Social Theory, Cambridge, MA, and London, UK, The Belknap Press of Harvard University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Verge, T., Claveria, S., &amp; Waylen, G. (2017). Party office, male homosocial capital and gendered political recruitment. Gender and Informal Institutions, 91-114.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Walby, Sylvia. Gender transformations. London: Routledge, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Walby, Sylvia. The future of feminism. London: Polity Press, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Young, Iris M. Justice and the Politics of Difference. Princeton: Princeton University Press, 1990.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Maria Cec\u00edlia Eduardo<\/strong> \u00e9 doutora em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela UFPR e professora da UFPR Litoral.<br><strong>Karolina Roeder<\/strong> \u00e9 doutora em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela UFPR e professora da Uninter.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maria Cec\u00edlia Eduardo e Karolina Roeder Apesar dos avan\u00e7os nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as mulheres ainda enfrentam uma sub-representa\u00e7\u00e3o significativa na pol\u00edtica. 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